domingo, 28 de agosto de 2011

Amanhãs!

Durante uma recente excursão, fiquei surpreso ao ver-me cercado por um mar de "amanhãs". Não, não se tratava de uma visita a uma maternidade, nem à classe do maternal de uma escola, onde o brilhante potencial de crianças pequenas nos proporciona um tangível sendo do "amanhã", i.e., o futuro, vital e promissor. Embora seja verdade que eu sempre sinta o entusiasmo do "amanhã" quando estou com os pequeninos, a sensação que estou descrevendo vinha exatamente do lado oposto do espectro - o cemitério.
Todas juntas, as pedras tumulares contam a história de amanhãs que jamais virão, e juntos, muitos de nós estamos esboçando epitáfios similares para nós mesmos.
Meus deveres oficiais como rabino de uma comunidade levam-me, mais vezes do que eu gostaria, aos silenciosos campos onde as gerações que nos precederam foram para descansar. Se a pessoa olha em torno e escuta atentamente o sossego, há uma inquietante consciência de uma multiplicidade de (na falta de uma palavra melhor) "amanhãs" - uma profusão de coisas que poderiam ter sido, deveriam ter sido, talvez fossem, teriam sido... mas para "amanhã."
Tendo crescido em Milwaukee, e trabalhado por 40 anos no rabinato, consigo olhar em torno, não importa qual o cemitério que estou visitando, e reconhecer muitos nomes familiares, pessoas de quem me recordo da minha infância ou depois. Muitas vidas vividas em grande distinção. Os restantes, em geral, foram cidadãos de bem, devotados à família e à comunidade, judeus que deixaram um legado de trabalho e integridade. É por este último grupo que fico tão entristecido. Porque não apenas me lembro de quem foram, mas de quem poderiam ter sido, se não tivessem dissipado seus "hojes" em troca de seus "amanhãs".
É claro que todos fazemos isso; a procrastinação é tão antiga quando a própria humanidade. Porém o mero dilúvio daquilo que o passado adiou para "amanhã" elevou-se como uma densa névoa sobre o campo, lançando uma sombra pesada e longa sobre o solo.
Minhas reflexões levaram-me de volta ao presente, à família, meus amigos, e a mim mesmo. Cada um de nós tem muitas coisas que preza e espera realizar durante a vida. Invariavelmente, são conquistas importantes, do tipo que se constitui em legados duradouros. O que fazemos sobre estas aspirações? Adiamos para "amanhã" - é claro! Hoje estamos muito ocupados, muito sobrecarregados, e muito exigentes. Com uma constância infalível, amanhã será um outro hoje, repleto e agitado com exigências que descaradamente se recusam a ser adiadas.
Pateticamente, as eternas verdades da vida, aquelas que deveriam clamar por nossa atenção e insistir para serem reconhecidas, esperam silenciosa e pacientemente nas alas de nossa consciência, para serem finalmente convertidas no tecido vivo da existência. Todas juntas, as pedras tumulares contam a história de amanhãs que jamais virão, e juntos, muitos de nós estamos esboçando epitáfios similares para nós mesmos.
O início de um novo ano representa uma oportunidade única para transformar nossos "amanhãs" em "hojes", assumindo o sério compromisso de conquistar as metas que julgamos sagradas. Fazer "o primeiro em primeiro lugar" nos possibilitará sentir a energia de estar vivo e tornar realidade a liberação de nosso potencial.
Em minha lista pessoal para o ano que já se iniciou, o "hoje" está no primeiro lugar da lista. Gostaria de insistir respeitosamente para que cada um refletisse sobre as muitas bênçãos que nos alcançarão se tivermos a tenacidade e a determinação para transformar nossos "amanhãs" em "hojes".

Rabino Michel Twerski

Rosh Hashaná: O Dia do Julgamento

"Hayom harat olam..."
“Hoje é o dia do nascimento do mundo. Hoje Ele convoca em juízo todas as criaturas do universo..." (da oração de Mussaf de Rosh Hashaná)

Rosh Hashaná, comemorado no primeiro e segundo dias do mês hebraico de Tishrei, é diferente de todas as outras festividades judaicas. Todas as demais marcam uma experiência significativa na história de nosso povo, enquanto que Rosh Hashaná celebra um evento universal: a criação do primeiro homem e da primeira mulher. Rosh Hashaná não é, portanto, apenas uma data sagrada para o judaísmo, mas uma celebração universal, que enfatiza a necessidade de que cada ser humano tenha plena consciência de sua missão nesta vida.
O Zohar, obra em que se alicerça a Cabalá, ensina que quando o primeiro homem foi criado, D’us imediatamente o informou acerca de seus poderes, revelando-lhe sua missão de vida: "...Frutificai-vos e multiplicai-vos e enchei a terra, subjugando-a e dominando os peixes do mar e as aves dos céus, bem como todo ser que se arrasta pela terra" (Gênese 1:28). O Criador ordenava, pois, aos primeiros homem e mulher criados que conquistassem e governassem o mundo todo.
Nossos sábios revelam o verdadeiro significado dessa missão atribuída ao homem de “conquistar o mundo”. Explicam-nos que quando D’us criou Adão, sua Divina Alma permeou e irradiou-se por todo o seu ser, dando-lhe, assim, o poder de dominar os outros seres. Mas que quando as demais criaturas chegaram-se a Adão para coroá-lo como seu criador, ele lhes apontou o engano, dizendo: “Reunamo-nos e juntos exaltemos a D’us, nosso Criador”!
A missão de “subjugar o mundo” significa que o propósito do homem, nesta vida, é santificá-la, a começar por ele e os que o cercam, para que todos os seres vivos saibam que D’us é nosso Criador. D’us criou apenas um homem – dele criando a mulher – e impôs a ambos esta tarefa. O Talmud explica que uma das razões para que D’us criasse apenas um ser humano foi transmitir o ensinamento de que cada um de nós é um microcosmo do universo todo. Nossos sábios dizem que cada ser humano deve habituar-se a dizer “o mundo todo foi criado apenas por minha causa”. Não se trata de uma afirmação de egocentrismo ou egoísmo. Bem ao contrário, significa que cada pessoa tem sobre si a responsabilidade por todo o restante do mundo. Como cada um de nós representa Adão, cada um de nós herda e carrega a missão ordenada pelo Criador à primeira criatura humana em quem Ele insuflou vida. Assim sendo, qualquer um de nós tem a capacidade de “subjugar o mundo”. Se a pessoa não cumpre essa tarefa e não utiliza os seus inestimáveis poderes divinos da forma mais plena possível, terá falhado não apenas ele, mas sua falha afetará o bem-estar e o destino do mundo inteiro. Esta conscientização de maior poder do indivíduo e de responsabilidade coletiva e as subseqüentes decisões e ações que tal conscientização enseja são dos principais temas dos dias sagrados de Rosh Hashaná.

Aniversário da Criação

Na liturgia de Rosh Hashaná, proclamamos: “Hoje é o dia do nascimento do mundo, do início da Obra de Tuas mãos...”. Mas, por que Rosh Hashaná é chamado de “início da Obra Divina” se a Criação do mundo se iniciou cinco dias antes de Adão ser formado? Por que seria este o dia chamado de “primeiro” quando, conforme revela a Torá, era, de fato, o sexto dia?
Uma das respostas a estas perguntas é que no sexto dia da Criação – o primeiro dia do mês hebraico de Tishrei – a existência teve conteúdo e sentido com a criação de Adão e Eva. O aniversário do mundo não é computado a partir da criação das galáxias, plantas ou animais, que não possuem o livre arbítrio; nem tampouco é calculada a partir da criação dos anjos, que cega e infalivelmente seguem todas as ordens e diretivas Divinas. Mais precisamente, o propósito do universo se concentra na força interna do ser humano de escolher entre o bem e o mal, de viver consoante com a vontade de Seu Criador ou não. No sexto dia da Criação, quando Adão e Eva abriram seus olhos e contemplaram o mundo Divino, foram agraciados com a opção de a Ele atender ou a Ele se opor. O ser humano é o protagonista da história ininterrupta do universo e, portanto, a sua criação foi o que determinou o primeiro dia do mundo.
A cada Rosh Hashaná, repetimos o apelo de Adão a todas as criaturas vivas: “Vinde, para que juntos louvemos e nos curvemos, ajoelhando-nos diante de D’us, nosso Criador”. Durante os dois dias dessa festividade, intensificamos a nossa conscientização da presença do Criador, comprometendo-nos a aumentar nossa percepção de Sua Majestade e de Seu domínio sobre nossas vidas. Por esta razão, proclamamos em nossas preces de Rosh Hashaná: “Nosso D’us e D’us de nossos pais, reina sobre todo o universo com Tua glória, eleva-Te sobre toda a terra, na Tua magnificência, e manifesta-Te no esplendor da majestade do teu poder a todos os habitantes do Teu universo. E saberá todo ser vivo que Tu o fizeste, e toda criatura que Tu a criaste, e todo aquele em quem insuflaste uma alma viva proclamará: “O Eterno, D’us de Israel, é Rei Majestoso e Seu Reino a tudo domina”.
O Talmud (Rosh Hashaná 10b-11a) conta que além da criação de Adão, outros inícios significativos ocorreram em Rosh Hashaná. Os Patriarcas Abraham e Jacob nasceram nesse dia. Abraham representou um novo despertar para toda a humanidade após Adão e Noé não terem conseguido disseminar o monoteísmo e a moralidade pelo mundo. Jacob foi um recomeço para o povo judeu, pois por seu intermédio os judeus se tornaram uma família que, a partir de então, desenvolveu-se em uma nação. E foi também em Rosh Hashaná que o povo judeu, no Egito, foi dispensado do trabalho escravo, marcando o início de sua libertação que culminaria no Monte Sinai, onde receberam a Torá, tornando-se, a partir de então, um povo amadurecido a ponto de constituir uma verdadeira nação.

Por que dois dias? A explicação cabalista

O fato de Rosh Hashaná marcar o aniversário da Criação é exatamente a razão que faz dessa data o Dia do Julgamento. Qualquer plano deve ser avaliado, de tempos em tempos, para ver o seu andamento, se atingiu seus objetivos e propósitos. Como Rosh Hashaná foi o primeiro dia em que um ser com um propósito determinado passou a fazer parte deste mundo que conhecemos, D’us escolheu esse dia para a avaliação anual de Seu universo e do quanto os seres humanos tinham alcançado em levá-lo à perfeição. Nós, judeus, o Povo Eleito, recebemos d’Ele a ordem de cumprir todos os mandamentos de Sua Torá. Os não judeus têm a obrigação de cumprir as Sete Leis de Noé, que proíbem idolatria, blasfêmia, assassinato, imoralidade sexual, roubo, ingestão de qualquer parte de um animal vivo e a corrupção da justiça. Os não judeus também têm a obrigação de praticar caridade, atos de bondade e zelar pela eficiência e justiça de seus tribunais civis.
Nos Dois Dias do Juízo, D’us julga judeus e não judeus, indistintamente, bem como todos os outros seres vivos. Pois está escrito: “Em Rosh Hashaná, o Dia do Ano Novo, será inscrito e no Yom Kipur, o dia de jejum da Expiação, será confirmado: quantos terão de sair do convívio humano e quantos terão que nele entrar; quem viverá e quem morrerá... quem em sossego e quem em meio a tumulto... quem em pobreza e quem em abundância; quem será elevado e quem humilhado será”. Enquanto, por assim dizer, D’us está em Seu Trono Celestial, julgando-nos, nós oramos implorando pela vida, saúde e sustento para o ano vindouro, pois que em Rosh Hashaná os atos de cada indivíduo são minuciosamente examinados; durante esses dois dias, estão sendo julgados, pelo Juiz e Provedor Celestial, o destino e o sustento, no ano por vir, de cada um dos seres vivos sobre a terra. Os estudiosos místicos ensinam que o comportamento do povo judeu afeta não apenas a sua própria sentença, a ser proferida em Rosh Hashaná, mas também a do mundo e daqueles que nele habitam.
Durante o ano, as comunidades que vivem fora de Israel celebram as festas judaicas durante um dia a mais do que aqueles que habitam a Terra Santa. No entanto, mesmo os que residem em Israel têm que guardar a data sagrada de Rosh Hashaná por dois dias – no primeiro e segundo dias do mês de Tishrei. O Livro do Zohar, escrito pelo grande místico e mestre da Torá, Rabi Shimon bar Yochai, explica o porquê: Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, representa o atributo Divino da Guevurá – justiça e disciplina severas. E, como todas as criaturas vivas estão sendo julgadas em Rosh Hashaná e não suportariam a aplicação da severa sentença Divina, acrescenta-se um segundo dia à celebração. Esse segundo dia é principalmente governado pelo atributo de Malchut – que, sendo o atributo Divino que permeia o Shabat, é um atributo de julgamento clemente e misericordioso.
Nos dias que antecedem Rosh Hashaná, reunimo-nos nas sinagogas para recitar as preces de Selichot – pedidos de perdão Divino. O Zohar revela a importância da confissão dos pecados diante do Criador: “Aquele que encobre suas transgressões, jamais prosperará; mas quem as confessa e abandona, obterá a misericórdia” (Provérbios 28:13) do Santo, Bendito Seja Ele. Rosh Hashaná, portanto, não é apenas um dia de julgamento, mas especialmente de auto-análise e julgamento de nossos próprios atos.
Diariamente, mas em especial durante a festividade de Rosh Hashaná e nos dias que a antecedem e sucedem, cada um de nós deve indagar a si próprio quanto de seus propósitos conseguiu realizar e a que novas determinações de crescimento e aperfeiçoamento pessoal se propôs para o ano que está por iniciar. Cada um de nós, judeus, deve refletir sobre o fato de ter a responsabilidade de “subjugar e conquistar o mundo”, cumprindo as instruções do Criador do Mundo, por Ele entregues a nós em Sua Torá. Em Rosh Hashaná, somos responsabilizados não apenas pelo que fizemos, mas também pelas boas ações que poderíamos ter realizado – e não o fizemos. Fomos bondosos e generosos com os menos favorecidos? Mantivemos nossa fé e elevada moral mesmo diante de provações e atribulações? Oramos com sinceridade e cumprimos os mandamentos de D’us com seriedade de intenção e total entrega? Conseguimos elevar-nos e santificar o mundo através do estudo da Torá – com a plenitude que estava a nosso alcance? O julgamento de Rosh Hashaná requer que pesemos as mínimas e infinitas possibilidades e oportunidades que são colocadas diante de nossos olhos, diariamente.
Ano após ano, nos dois dias de Rosh Hashaná, D’us determina se cada um de nós está desempenhando sua missão de vida em toda a sua plenitude – para assim santificar a si próprio e a todo o mundo, através da proclamação da Majestade do Criador e de ações consoantes com as Suas determinações. Então, enquanto “...todos os habitantes do mundo desfilam diante d’Ele feito um rebanho”..., e Ele, como um pastor, vistoria as suas ovelhas, determinando “o destino de cada criatura e anotando a sua sentença: ...quem viverá e quem morrerá..., quem em pobreza e quem em abundância, quem será humilhado e quem será elevado”...eis que, repentinamente, um som penetrante eleva-se da Terra e reverbera, em sua magnitude, pelos Céus. É o chamado do shofar, o simples toque de uma trombeta que anuncia que o Povo Eleito por D’us está coroando-O como seu Rei, anunciando a todos os seres vivos que...”O Eterno, D’us de Israel, é Rei Majestoso e Seu Reino a tudo domina”.
Proclamando mensagens com uma eloqüência que as palavras jamais seriam capazes de transmitir, o simples chamado do shofar desperta a consciência do homem para um compromisso renovado e mais profundo com seus atos e missão de vida.
E D’us Misericordioso, Aquele que penetra nas profundezas do coração de cada um de nós, irá certamente responder a nosso propósito de tomar boas resoluções, enviando as Suas bênçãos para que as mesmas se realizem em sua plenitude.
Que neste Rosh Hashaná que se avizinha..., possa Aquele que está nas Alturas Celestiais “erguer-se do Trono do Julgamento e sentar-se no Trono da Misericórdia”, para desta forma inscrever todos os Seus filhos no Livro da Vida, abençoando-os com um ano de paz, saúde, júbilo e tranqüilidade material e espiritual.

Fonte: Morashá- Edição 42 - Setembro de 2003
Bibliografia:
• Commitment, Memory and Deed: www.chabad.org/holidays/JewishNewYear/
• The Neurology of Time; ibid
• The Man in Man; ibid
• To Will a World; ibid
• Rebbe’s Message – 25th of Elul, 5719 – Rabbi Menachem Mendel Schneerson, Z.T.K.L.
• Rosh Hashana Machzor – Artscroll Mesorah – Rabbi Nosson Scherman, Rabbi Meir Zlotowitz, Rabbi Avie Gold 
• The Wisdom of the Zohar – Isaiah Tishby (Editor), David Goldstein (Translator) 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O que há de tão terrível na idolatria?

Por que o judaísmo é tão intolerante quanto à idolatria? Não estou falando de templos imensos com sacrifícios humanos. Mas sim, falo do idólatra civilizado, na privacidade de seu próprio lar. Com um emprego, família, hipoteca, que faz doações para o Fundo Mundial contra a Fome e o Greenpeace - e ao invés de um D'us, ele simplesmente tem dois ou três, ou mesmo várias dúzias, todos alinhados no painel do carro. Por que o judaísmo faz disso um pecado capital, exigindo a erradicação total da idolatria em cada canto do mundo? Desde que não prejudique ninguém, o que há de tão terrível?
Resposta:
Há muitas maneiras de se responder a isso, mas tomemos uma perspectiva histórica. Os historiadores concordam que nosso atual padrão ético origina-se na ética judaica. Sim, os gregos nos legaram as ciências naturais, a filosofia e a arte; os romanos nos deram estrutura governamental e engenharia; dos persas, temos a poesia e a astronomia; dos chineses, o papel, a impressão, a pólvora, acupuntura e mais filosofia, e assim por diante. Porém o fato histórico é que todas estas culturas (e todas as outras não citadas) apoiaram e até glorificaram atitudes e comportamentos que hoje em dia abominamos universalmente. Nos dias de hoje, se você se livrar dos filhos não desejados, praticar a pederastia, colocar seres humanos para se matarem uns aos outros por esporte, ignorar os direitos daqueles inferiores a você na pirâmide social e recusar-se a reconhecer qualquer responsabilidade social para com os pobres e os desabilitados, e mal consegue esperar para correr para a guerra contra o país vizinho, você é um bárbaro. Você teria sido um perfeito cidadão de Atenas ou Roma, mas hoje, nenhum clube o aceitaria.
De onde vêm estes valores? Existe somente uma fonte que os historiadores podem apontar: a Torá. E o mesmo ocorre com a educação universal e o ideal da paz no mundo.
Ora, isso dá a qualquer erudito um problema de monta para resolver. A História é geralmente vista como algo similar à uma floresta virgem e diversificada, onde uma coisa cresce a partir de outra. As sementes caem e brotam. As árvores ramificam e florescem, depois caem e nutrem cogumelos a partir de sua raiz apodrecida. Toda a vegetação e criaturas da floresta dividem o mesmo ar, água e solo, e nenhuma criatura pode subsistir isolada. Assim também, uma civilização se ergue do barro, ramifica-se, e cai para tornar-se o solo nutriente para a próxima. As idéias se transformam, numa perpétua metamorfose ao passarem pelos filtros das variadas culturas. Tudo o que é, já foi - e terminará por passar.
Tudo exceto os judeus. Totalmente fora de contexto, com uma ética que fez cada nação chamá-lo de louco e absurdo, totalmente radical, sempre fora do compasso. Definitivamente, não é parte desta floresta. E no fim, sua ética leva a melhor.
Faz-se necessária alguma explicação. Antes de mais nada, de onde eles tiraram estas idéias estranhas? E dizer-me que o Todo Poderoso os tirou da escravidão e ditou tudo para eles, não funciona. É verdade, mas não basta. Porque os seres humanos somente podem ouvir aquilo que já sabem. Precisava haver alguma coisa lá que chegou antes.
A resposta clássica é que certa vez, houve um homem chamado Avraham (Abraão), vindo de Ur, na Caldéia - a base original da civilização. Ele surgiu com este padrão através de seu próprio gênio independente. É claro que ser engenhoso, bravo e dissidente não bastava. Sua missão exigia também a tenacidade e a convicção para despertar uma geração que daria continuidade a esta idéia, nadando rio acima em situação de inferioridade perante a sociedade dominante. E então, por muitas eras, esta ética provou ser a espinha dorsal mais eficaz de uma sociedade sustentável.
Agora, diga-me, algum erudito racional realmente acredita neste cenário?
Na verdade, a versão apoiada pelo Talmud e descrita em detalhes pelo Rambam (Maimônides) é muito mais crível:
A ética que Avraham apresentou ao mundo já existia desde o início. A humanidade sabia que cada pessoa era feita à Divina imagem, que a vida tinha um propósito. Que o mundo era a obra de uma entidade celestial que desejava que dele cuidássemos, e que nos julgava segundo nossos méritos. Mesmo no tempo de Avraham, indivíduos isolados resistiam e pregavam isso a seus discípulos, como uma tradição desde Adam (Adão), Metushelach (Matusalém) e Nôach (Noé).
Mas estamos falando de seres humanos. Exatamente por causa da centelha Divina dentro de si, o humano é também a criatura selvagem e louca que busca a abordagem de vida mais bizarra, capaz e pronto a fazer qualquer coisa. Assim, a sociedade humana em geral abandonou o padrão original de Adam por "aquilo que a faz sentir-se bem." A lei tornou-se nada mais que uma forma de o rei governar seu povo. A ética passou a ser nada mais que o costume que fosse mais confortável para a maioria das pessoas. A única medida do valor de uma vida humana era o grau de poder que a pessoa tinha. E o mundo natural era visto como um local sem valor, não valendo a pena investir em nada além daquilo que produzisse alimentos e poder sobre os outros.
Avraham não precisou começar com a humanidade a partir do zero. Ele tinha apenas que resgatar aquela ética original. Mas ele também redescobriu - e ele o fez por si mesmo - a base que tornou aquela ética sustentável: o Monoteísmo. Mais especificamente: a providência monoteísta. Para simplificar: todo adulto e criança deve saber que há um Único Criador de todas as coisas, que Se importa com aquilo que você está fazendo com Seu mundo.
Por que o monoteísmo e a providência são tão essenciais?
Voltemos à história novamente, segundo as fontes judaicas tradicionais:
Os predecessores de Avraham também sabiam do D'us Único, Criador do céu e da terra. Porém eles entendiam D'us como sendo sublime e transcendente demais para estar ocupado com este mundo profano e suas criaturas. Eles começaram a fazer pouco de Sua providência, afirmando que poderes secundários, de Seu mandato, tinham sido concedidos como uma parte do domínio. Chegaram ao ponto de construir templos, onde concentravam suas mentes na dinâmica destas forças, atingindo alturas espirituais e poder místico. Por fim, a sabedoria deu lugar ao charlatanismo, conforme os sacerdotes diziam às massas que uma determinada estrela, deus ou deusa tinha falado com eles, ordenando-lhes que servissem a ele ou ela de uma certa maneira. Os governantes acharam que uma boa mistura de conhecimento secreto e uma mitologia conveniente poderia ser um instrumento de poder sobre o populacho; que controlando o fluxo de conhecimento, seriam capazes de manter o povo em respeito e obediência.
Foi aí que Avraham divergiu. Ele enxergou através da ordem estabelecida com sua hierarquia de conhecimento e poder, e ponderou que esta era a origem de todo o mal. Viu até o fundo disso: enquanto D'us estivesse "lá em cima" e tudo o mais fosse visto como num plano descendente, mais e mais distante de Seu domínio, este mal continuaria.
Dentro deste paradigma, a vida humana perde seu valor essencial. Você, como indivíduo, não conta mais. Tudo que importa é quão alto você está na escala. Não somente os direitos humanos, como também o avanço da tecnologia é atrasado - pela necessidade da classe dominante de manter as massas trabalhando. Todo o progresso é dar ainda mais poder ao poderoso. A saúde pública, a previdência e a educação são um despropósito. Portanto, Avraham desafiou aquela hierarquia. Ele ensinou cada pessoa a invocar o nome do Único D'us dos céus e da terra, que julga igualmente os atos de todos os homens, desde o rei mais importante até o servo mais humilde. Ao colocar o D'us original de volta no mundo, Avraham recriou a "pessoa" - um ser humano que tem valor apenas por estar aqui.
Dentro do antigo padrão, a ética não tem uma base para se firmar. Se você não gosta daquilo que um deus exige de você, vai procurar outro deus que seja mais a seu gosto. Ou você molda estes deuses, enganando-os ou subornando-os, como eles mesmos estão acostumados a fazer um com o outro. Afinal, nenhum deles é supremo, nenhum é todo poderoso. Portanto, tudo é justificável. Então, Avraham destruiu os ídolos. Como existe somente um D'us, que supervisiona todas as coisas, a moralidade deixou de ser relativa. Todas as éticas são determinadas não pelo fluxo da conveniência social, mas por Seu padrão intransigente.
Sem a base de Avraham para a ética, a sociedade não tem estabilidade. Qualquer instituição poderia ser abalada até os alicerces, modificando as circunstâncias e os caprichos da vontade humana. Na Grécia Antiga, a instituição do casamento chegou à beira do colapso, devido às preferências pelo mesmo sexo, enquanto que em Roma, a unidade da família foi gradualmente desmantelada pela promiscuidade. As instituições que deveriam ter nutrido a espiritualidade humana em muitas sociedades tornou-se corrupta em orgias sangrentas e na veneração aos sentidos. Em muitos exemplos, tais como oriente, com nenhum senso de responsabilidade social, permitiu-se que a pobreza crescesse em proporções incontroláveis, com imensa concentração de poder. Em nossa época, com a origem das espécies atribuída aos místicos deuses do acaso e da lei natural, foram cometidos os mais horrendos crimes contra a humanidade, e a própria biosfera está ameaçada. Somente quando os edifícios da sociedade se erguerem sobre o alicerce sólido Daquele que Criou Tudo em Primeira Mão, uma sociedade sustentável poderá desenvolver-se.
A bem da verdade, a mensagem de Avraham também começou a perigar com o tempo. Não foi senão até que a providência monoteísta transcendesse o reino das idéias e se tornasse a real experiência de vida de um povo, que foi realmente capaz de prevalecer. E é exatamente isso que aconteceu no Monte Sinai, quando os descendentes de Avraham ficaram face a face com as ordens de agir diretamente vindas do Alto. O conceito da "mitsvá" entrou no mundo - algo que você faz porque D'us assim o deseja. E esta base tem se provado para sempre resistente.
Quanto ao restante das nações, como escreve o Rambam, elas também receberam ordens no Monte Sinai - de cumprirem as sete mitsvot de Adão e Nôach, que incluem a proibição contra o politeísmo.
Hoje, estamos testemunhando os mais dramáticos resultados da estratégia de Avraham em ação: nosso progresso nos últimos 500 anos, até chegar à atual habilitação do consumidor com a tecnologia e a informação, somente tornou-se possível através do despertar desta ética. Em um mundo politeísta, isso jamais teria ocorrido. Foi somente depois que o povo da Europa começou de fato a ler a Bíblia e a debater o que ela tinha para lhes dizer, que os conceitos de direitos humanos, responsabilidade social, o valor da vida e por fim o ideal da paz mundial tiveram seu lugar no progresso da civilização. E somente um mundo assim poderia ter desenvolvido a educação e a saúde públicas, a pensão de aposentadoria, os telefones, máquinas de fax, computadores, a Internet, o design ambiental e o desarmamento nuclear.
Estamos muito envolvidos para reconhecermos isso; o cobertor das trevas que resiste lutando até seu último alento preocupa nossas mentes. Porém se pudéssemos viajar de volta no tempo e descrever ao judeu das eras passadas o mundo que temos hoje em dia - um mundo que valoriza a vida, a paz mundial, os direitos individuais, a liberdade de expressão, o estudo, o saber e a compaixão por aqueles que possuem menos - aquele judeu sem dúvida responderia de olhos arregalados: "Quer dizer, são os dias de Mashiach?"
Um tempo que começou quando um jovem na Suméria pegou um martelo e esmagou os ídolos na casa de seu pai.
Tzvi Freeman

Leitura complementar: A versão judaica da história está espalhada por todo o Talmud, mas um completo esboço está na abertura de Maimônides, Leis da Idolatria. Esta é uma leitura essencial, como também a palestra do Lubavitcher Rebe que ilumina aquele esboço, apresentada em Licutei Sichot, vol. 20, pág. 13-24.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A batalha silenciosa

Fazemos tantas coisas sem considerarmos a questão do tempo ao levantarmos pela manhã e ao mesmo tempo nos mostramos negligentes em agradecer ao Eterno pela bênção de estarmos vivos e prontos para servi-Lo. A reflexão abaixo, de Yanki Tauber, mostra que a nossa oração de agradecimento por estarmos vivos e podermos levantar a cada manhã, não demora mais que alguns segundos, mas, apesar disso, sem perceber acabamos, muitas vezes, fazendo e organizando tudo ao nosso redor, menos orar a Deus: Modê Ani L'fanecha Melech Chai V'Kayam sh'he'chezarta Bi Nishmasi B'chemla raba Emunasecha” Uma oração curta, mas com significado incalculável: “Eu Te agradeço Rei Vivo e Eterno por teres restaurado minha alma dentro de mim, Tua lealdade é grande”.
Lembremos que o Eterno, Bendito seja Ele, não despreza aquele que tem um coração quebrantado e contrito.
Ben Baruch

A batalha silenciosa

Uma fria manhã de inverno, quando a escuridão esconde as horas e a noite parece ainda começar. A neve no solo, o vento assobiando aqui e ali, galhos delineados na sombra, às vezes batendo no telhado.

Você está na cama, seu sentido de alarme em ponto morto: ele não mais ataca sua consciência, mas sua mente permanece alerta. E assim começa o debate para levantar. É uma batalha silenciosa, realmente, uma miscelânea – quase uma luta para coordenar as palavras na cabeça. De repente, sem aviso, seus pés tocam o chão – quanto mais frio, mais depressa você sente que se moveu

Modê Ani L'fanecha
Eu Te agradeço

Você se senta à sua mesa; todos os utensílios estão ali, como os instrumentos do médico antes da cirurgia. O livro está aberto, os cartões de anotações arrumados, o marca texto ao alcance, a caneta aberta em cima das anotações. O computador está ligado, o programa aberto e você até já escreveu o título. O browser já encontrou uma dezena de páginas da rede a serem navegadas para apoio, informação e pesquisa.
Mas o comentarista no rádio tem algo interessante. E o ícone "você tem e-mail" está piscando.
Talvez seja importante, portanto logo você está lendo – até relendo – e-mails, piadas, trivialidades, pedidos, etc. Só para entrar no espírito da coisa, para clarear a mente. Um novo e-mail está vindo – um "spam". Surpreendentemente, você o deleta sem sequer olhar, fecha o programa e começa a digitar. A reportagem flui. Com certeza precisará de revisão, mas você espera ansiosamente até por isso – o trabalho o rejuvenesceu.

Melech Chai V'Kayam
Rei Vivo e Eterno

As roupas de uma semana esperam para ser lavadas, os pratos da última reunião noturna – e alguns que sobraram do Shabat – precisam ser lavados. O chão precisa de uma esfregada. Os livros têm de ser espanados. Há um cheiro de mofo no banheiro – está na hora do desinfetante – para não mencionar os pedacinhos de pasta de dente em volta da pia.

Mas manhã de domingo, o café está pronto, e o jornal está à sua frente – as revistas em quadrinhos e as palavras cruzadas. Você se senta com o café, um pedaço de bolo e um lápis. Só quinze minutos até começar o dia.

Uma hora e meia depois, você ainda está empacado no 15 Vertical. A quarta xícara de café está quase fria e aquele segundo pedaço de bolo é uma tentação. Você sentado ali, a mente passeando do 15 Vertical até a pia e dali para o telefone.

E então você está na lava-louças, arrumando as vasilhas na bandeja.

Sh'he'chezarta Bi Nishmasi B'chemla
Por teres restaurado minha alma dentro de mim

Você precisa marcar aquele compromisso. Precisa telefonar à sua tia. Precisa fazer a ligação. Precisa comprar os mantimentos, comparecer à reunião, fazer uma revisão no carro, chamar o pintor. Tantas pequenas coisas, tantas obrigações que, ignoradas, adiam os minutos da vida.

Raba Emunasecha
Tua lealdade é grande

Caridade, tefilin, velas de Shabat, comida casher, mezuzá, micvê, livros judaicos, estudo de Torá, visita aos doentes, receber convidados, honrar os pais.
A preguiça é um insulto à alma.

Yehuda ben Tema disse: "Todos devem, pela manhã, dominar sua inclinação, como um leão, despertar de seu sono perante a luz da manhã para servir a seu Criador." E isto não leva mais do que alguns minutos…

Yanki Tauber
Fonte: Chabad

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Não nos surpreendeu a declaração do embaixador do Irã

O CJL (Congresso Judaico Latino-Americano) emitiu um comunicado em relação às expressões de Hojjatollah Soltani sobre o Holocausto.
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 BUENOS AIRES (CJL) - Há poucos dias, o embaixador da República Islâmica do Irã em Montevidéu, Hojjatollah Soltani, colocou em dúvida o Holocausto judeu ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial.

Não nos surpreenderam estas aberrantes declarações. Soltani é o representante de um governo que conclama a apagar do mapa um Estado, e permanentemente nega o Holocausto.

Sabemos que, no Uruguai reina uma profunda cultura da memória, da diversidade, do respeito mútuo e da justiça, valores que Soltani insultou com suas declarações. O Uruguai foi o primeiro país da região a erigir um Memorial às Vítimas do Holocausto, e a cada 27 de janeiro expressa, conforme o mandato da ONU, sua vocação em recordar e educar sobre este capítulo sombrio da história para que não volte a se suceder. Há somente alguns días, o Parlamento uruguaio aprovou uma lei e que honra a memória das vítimas do Holocausto, e deseja incorporar esta temática no currículo escolar e na programação do sistema de radiodifusão e cultura do país.

Sabemos que Uruguai rechaça este ato de negação e antissemitismo. Também, temos conhecimento de que o Irã é quem o promove.

A vigência dos valores de tolerância e liberdade, e a história de respeito pelos direitos humanos que caracterizam o Uruguai levou a homens de bem a levantarem a voz contra mentiras como as expressadas pelo representante do Irã, um país com o qual o Uruguai tem vínculos comerciais.

Essas declarações mostram que, no transcurso do tempo, não é possível desvincular as relações comerciais das ideologias políticas de distintos países. Sem dúvida o Irã, a partir sua embaixada, importa à região ideias que não cabem na cultura de nossos países. Então, nos perguntamos: Como compatibilizar a democracia latino-americana, como neste caso à uruguaia, com um país que não respeita os direitos humanos nem de suas próprias mulheres?

Nossa região é receptora de dois veios de dinheiro provenientes do Irã: Uma gerada pelo crescimento do comércio internacional, e a outra para o desenvolvimento de uma infra-estrutura terrorista, como provou a Justiça Argentina no caso AMIA, onde foram assassinadas 85 pessoas.

Apelamos para o fortalecimento da democracia, da cultura e da diversidade, e que impere a vigência dos direitos humanos, para que estes lancem luzes onde hoje reinam trevas.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Um Psicoterapeuta em Auschwitz

Shema Yisrael Hashem Elokeinu Hashem Echad… Ouve, ó Israel, o Eterno é nosso D'us, o Eterno é Um.

Essas palavras são o ponto alto das nossas preces diárias, expressando poderosas pérolas de fé.

Essas palavras têm sido murmuradas no decorrer dos tempos, em épocas de grave desafio, em porões escuros, por aqueles que exalavam seu último suspiro, num auto-da-fé na Espanha ou numa câmara de gás na Alemanha nazista.

Há também palavras de esperança e felicidade, entoadas com alegria ao celebrar importantes acontecimentos.

Porém eu não esperava ler essas palavras hebraicas num clássico campeão de vendas, um livro de psicologia que foi considerado pela Biblioteca do Congresso como um dos dez livros mais influentes nos Estados Unidos.

“A Busca do Homem por um Significado”, por Viktor Frankl, vendeu mais de doze milhões de cópias em todo o mundo. Frankl descreve suas experiências nos campos de concentração nazistas, porém mais que as suas provações, ele escreve como psicólogo sobre o que lhe deu força para sobreviver.

Frankl descreve pungentemente como os prisioneiros que desistiram da vida e da esperança por um futuro eram inevitavelmente os primeiros a morrer. Eles morreram menos pela falta de comida que pela falta de algo pelo qual viver. Em contraste, Frankl se manteve vivo pensando em sua mulher, e sonhando em fazer palestras sobre como as suas experiências reforçaram aquela que já era uma parte importante de sua tese antes de entrar nos campos – que a força de motivação fundamental de toda pessoa é a busca por um significado.

A autobiografia de Frankl é seguida por um esboço de sua doutrina terapêutica de cura da alma encontrando significado na vida. Sua teoria ganha credibilidade a partir do pano de fundo de suas experiências pessoais nos campos de concentração e como ele encontrou significado enquanto enfrentava seu sofrimento.

Um forte encadeamento implícito em todo o livro é a força e o amor que ele extraiu não somente das lembranças de sua mulher, como também de sua fé.

Como ele declara em seu livro, “A Busca do Homem por um Significado Definitivo”:D'us não está morto, nem mesmo depois de Auschwitz.” Pois a crença em D'us é incondicional, ou então não é crença. Se for incondicional, enfrentará o fato de que seis milhões morreram no Holocausto; se não for incondicional, então vai desmoronar se apenas uma única criança inocente tiver de morrer… Não adianta barganhar com D'us, ele diz e argumenta: “Até o ponto de seis mil ou até um milhão de vítimas no Holocausto eu mantenho minha fé em Ti; porém acima de um milhão nada mais pode ser feito, e sinto muito, mas devo renunciar à minha fé em Ti… Uma fé fraca é enfraquecida por provações e catástrofes, ao passo que uma fé forte fica ainda mais fortalecida por elas.”

Pouco depois de chegar a Auschwitz, Frankl foi privado do objeto mais precioso que possuía – um manuscrito que era a obra de sua vida, e que tinha escondido no bolso do casaco. Percebendo que as chances de sobreviver eram pequenas, “não mais que uma em vinte e oito”, ele teve aquela que descreve como “talvez a experiência mais profunda nos campos de concentração.”

“Eu tive de passar e superar a perda de minha criança mental. E parecia como se nada nem ninguém fosse sobreviver a mim; nem uma criança física nem uma mental que fosse minha. Portanto fui confrontado com a questão de que sob tais circunstâncias minha vida, em última análise, estava vazia de significado.”

“Eu ainda não tinha percebido que uma resposta a essa pergunta com a qual eu lutava tão apaixonadamente já estava reservada para mim, e que pouco depois essa resposta me seria dada. Foi isso que aconteceu quando tive de entregar minhas roupas e por minha vez recebi os trapos rasgados de um interno que já tinha sido enviado à câmara de gás… Em vez das muitas páginas do meu manuscrito, encontrei no bolso no casaco recém-ganho uma única página de um livro de preces em hebraico, contendo a prece mais importante, Shema Yisrael. Como poderia eu ter interpretado tamanha “coincidência” como não sendo um desafio para viver meus pensamentos em vez de meramente colocá-los no papel?”

E então na sentença que conclui este livro campeão de vendas que foi traduzido em vinte e quatro idiomas, Frankl novamente expõe essa eterna proclamação de fé.

“Nossa geração é realista, pois chegamos a conhecer o homem como realmente é. Afinal, o homem é aquele ser que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; no entanto, ele é também aquele ser que entrou naquelas câmaras de cabeça erguida com a oração do Shemá Yisrael nos lábios.”

O que há na prece Shemá Yisrael que tem inspirado tantos através das maiores dificuldades e tem conferido tamanho significado e propósito para nos ajudar a sobreviver até mesmo nas circunstâncias mais desesperadoras?

Creio que além da simples afirmação de fé num único poder Superior e o profundo significado místico oculto nas palavras dessa prece especial, há quatro elementos psicológicos vitais que fizeram dela nosso alicerce da fé:

1 – Relevância: Ouve, ó Israel – Uma religião ou estilo de vida não pode começar e terminar com teorias; deve também dirigir-se à parte humana dentro de nós. O Shemá não começa no âmbito da ideologia, nos céus, com uma declaração de fé despersonalizada. Fala endereçando todos e cada um de nós. Ouve, ó Israel, ouve essa mensagem, e faz dela uma parte do teu ser, porque não está falando sobre ti, não para ti, mas está te chamando.

2 – Pertencer: A prece Shemá está no plural (“nosso D'us” e não “meu D'us”), falada como um grupo coletivo, dirigindo-se a nós todos como Israelitas. Os seres humanos têm uma necessidade de se identificarem uns com os outros. O senso de fazer parte. Recebemos força uns dos outros e a fortaleza de sermos parte de algo maior que nós mesmos. Mais atraente que a ideologia é uma sensação de pertencer a uma família expandida – apesar das barreiras. Aquele senso de comunidade é um dos nossos alicerces mais fortes.

3 – Personalização: D'us é nosso D'us. D'us é “nosso”. D'us que é transcendental e infinito é também nosso D'us pessoal que está conosco em todos os momentos, segurando nossa mão tanto em tempos de celebração quanto nas horas de desespero. D'us não é apenas um governante objetivo, que cria e regula o cosmos. Ele é “nosso”, está perto de nós, entendendo subjetivamente a parte mais profunda de nós mesmos, mais do que a entendemos; Ele está conosco em tempos de necessidade, júbilo e sofrimento.

4 – Individualidade: Por mais que precisemos todos de um senso de pertencer e de comunidade, não devemos negar nossas diferenças individuais. A declaração do Shemá termina com as palavras “D'us é um” (em vez de D'us é “singular” ou “sozinho”). A unicidade de D'us está presente na diversidade do mundo. Como disseram os mestres chassídicos: “Não há nada além d’Ele.” Enquanto a conformidade tolhe o crescimento, a “unicidade de D'us” deveria nos possibilitar descobrir e cultivar a unicidade e unidade Divina dentro de cada um de nós.

Uma base da teoria de Frankl é que forças além do nosso controle podem levar tudo que possuímos, exceto uma coisa – nossa liberdade de escolher como vamos reagir à situação.

Após descrever a angústia de suas experiências em Auschwitz, Frankl conclui suas memórias pessoais: “A experiência mais elevada, para o homem que regressa ao lar, é a maravilhosa sensação de que após tudo que ele sofreu, não há nada de que precise temer – exceto seu D'us.”

Esta pode tornar-se nossa crença mais poderosa.
Chana Weisberg

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

DEUS EXISTE?

 Há incontáveis razões para você acreditar que sim.

 Quantas vezes em sua vida você já se fez esta pergunta, e quantas ou diferentes respostas você obteve?
É comum quando estamos extremamente felizes e nos sentimos recompensados agradecer e dizer: "D’us existe!", ou em momentos de extrema dificuldade, quando nosso pacote parece demasiadamente pesado, duvidarmos de Sua existência.
A resposta para estas perguntas é: D’us é tudo e está em todo lugar. Rodeia-nos como a atmosfera, e penetra toda a matéria e energia no universo. Ele está vivo. Existe em todos os tempos. Existia antes que houvesse tempo e lugar; aliás, Ele criou o tempo e lugar. É capaz de fazer, criar ou destruir qualquer coisa. Mas não tema – D’us é legal. E Ele se importa com cada um de nós o tempo inteiro.
A palavra "Ele" é usada para que possamos nos referir a D’us. Mas D’us não é masculino, feminino, nenhum dos dois, ou ambos. Ele não tem físico, forma tangível. Ele é Um, significando que não tem partes e é indivisível.
A ciência afirma que o Universo começou com uma explosão cataclísmica espalhando-se uniformemente a partir de um ponto central. Mas de onde veio aquele centímetro cúbico super condensado de matéria original? E quem apertou o botão para desencadear o Big Bang? Hoje existe um número significativo de cientistas que acreditam no que a ciência duvidava há pouco tempo: a única resposta é D’us. Um ser infinito e, portanto acima, anos-luz da nossa limitada e finita capacidade humana de entendê-lo.
                                     
Abordagem científica
Você vê o universo à sua volta? De onde ele veio? Há apenas quatro soluções possíveis; a) o universo criou-se por si mesmo. b) o universo surgiu do nada. c) o universo sempre esteve aqui (em uma forma ou em outra). d) o universo foi criado por algum tipo de criador. Agora, concentre-se bem, analisemos estas soluções uma a uma:
a - O universo criou-se por si mesmo
Quando o universo criou-se por si mesmo - antes de estar lá, ou depois de estar lá? Se o universo criou-se antes de estar lá, então já estava lá, e não havia necessidade de criar-se a si mesmo! E, se o universo criou-se a si mesmo, por que parou de criar-se? Por que não vemos universos novos aparecendo do nada? Além disso, antes que o universo se criasse, havia um universo lá? Se não havia, então temos um paradoxo absoluto: havia algo lá com o poder de criar-se a si mesmo, mas não estava lá. Em outras palavras, era algo que também era nada. E daí?

b - O universo surgiu do nada
E quanto à Terceira Lei da Termodinâmica (conservação da matéria)? A matéria não pode ser criada nem destruída. É absurdo pensar que "algo" possa emergir do "nada". Não se impressione por aquilo que muitas pessoas são levadas a acreditar - que os cientistas encontraram partículas surgindo do nada e depois desaparecendo no nada. Para começar, isso contradiz não apenas o bom senso, como a própria Lei da Identidade, que é o alicerce de toda lógica. (A Lei da Identidade: alguma coisa é aquilo que é!)
Segundo, como pode alguém estar certo de que estas partículas estão realmente emergindo do nada? É muito mais provável e lógico dizer que são realmente indetectados antes de aparecer - seja porque não temos o equipamento para detectá-los ou porque não conseguimos entender as dimensões da realidade. Seja como for, é um tanto presunçoso acreditar no absurdo quando há uma explicação alternativa. Há ainda uma presunção lógica que Algo é melhor e mais forte que Nada. Em qualquer um dos casos, se Nada pode criar Algo, então certamente Algo pode criar. Então por que nós, que somos “Algos”, não podemos criar outros “Algos” a partir do Nada?

c - O universo sempre esteve aqui (de uma forma ou de outra)
Se o universo sempre esteve aqui, e portanto, o tempo volta infinitamente sem nenhum início, quanto tempo demorou para hoje chegar? "Bem," diria você, "levou uma quantidade infinita de tempo." Mas então como nós chegamos realmente a este ponto? Como podemos viajar uma duração infinita de tempo? Devemos concluir que tempo e distância são finitos, porque tiveram de ter começado há algum tempo e em algum lugar. Isso significa que o universo teve um início (ou devemos dizer Bereshit, Gênesis) que foi desencadeado pelo Criador.

d - O universo foi criado por algum tipo de criador
Esta opção é a mais lógica, porém a mais assustadora. Significa que há uma resposta à pergunta: "Por que estamos aqui?" Significa que há um Criador, e assim sendo, Ele ou Ela deve nos querer aqui por alguma razão.
                      
Moral
Se não há D’us, então não há certo e errado. Se não há D’us, isso significa que somos apenas um bando de animais que de alguma forma evoluíram a partir do cosmos. E como somos apenas um bando de animais, faz alguma diferença no vasto universo se um animal de duas pernas mata outro animal de duas pernas? Nenhuma. Sim, matar é errado, e sim, você viola o contrato social da reciprocidade se você mata alguém, mas ninguém tem a autoridade de ditar a você que matar é errado. Porque ele não é melhor que você, porque ele é apenas outro animal de duas pernas, a opinião dele não é melhor que a minha ou a sua.
Portanto, se D’us não existe, não deveria haver objeção às incontáveis atrocidades através da história. Porém, há objeções - por quê? Porque não somos um bando de animais - porque a moralidade é absoluta, e não relativa à nossa consciência individual. Porque há um D’us, e há um significado e santidade na vida. E há um código de conduta que nos orienta de que forma devemos agir e viver.
Somos seres palpáveis. É possível sentirmos uma força capaz de alavancar ações, de tomar decisões, de construir através de um ímpeto. Esta força é uma partícula do Criador. A força que nos move e nos mantém vivos. Nossa alma é eterna. Como? Pense Nele, em quem a criou. Somente algo Eterno é capaz de criar coisas eternas. D’us existe. Olhe à sua volta e dentro de você mesmo. Ele está em todo lugar e em todos os tempos. E isto não é ficção científica; é real.

Adaptado do artigo por Rabino Mendy Hecht - AskMoses.com