terça-feira, 13 de março de 2012

Guerras Internas

“A má inclinação de um homem todo dia ameaça dominá-lo” (Talmud, Sucá 52 b)

O mestre chassídico Rabi Simcha Bunim de Pershischa costumava dizer aos seus discípulos que uma pessoa realmente espiritual se sente como se estivesse deitada sob uma guilhotina com a má inclinação a ponto de cortar sua cabeça a qualquer minuto.

Certa vez um de seus alunos perguntou: “E se uma pessoa não se sentir assim?” O rabino respondeu: “Então sua cabeça já foi cortada.”

Muitas pessoas associam “má inclinação” somente com pecados óbvios, como trapacear, mentir, roubar, matar e outros comportamentos extremos. Na verdade, o âmbito da mente é uma área muito mais sutil. Nossas autoavaliações e criticas negativas sobre os outros podem ser tão destrutivas a ponto de prejudicar nossos relacionamentos e bloquear nossa capacidade de sentir amor, alegria e fé. Nossos julgamentos e imaginação assustadora podem nos levar a um redemoinho de depressão, ansiedade e ressentimento.

Veja os pensamentos deprimentes mais comuns:

*Não sou uma pessoa capaz de ser amada, pois basicamente sou falho e defeituoso. Serei inevitavelmente abandonado, ferido e traído por aqueles que amo, ou vou abandonar, magoar e trair as pessoas das quais quero me sentir próximo. Sempre irei me sentir alquebrado e sem esperança, portanto de nada vale tentar mudar. Todos os meus esforços para ser amoroso, saudável, feliz e produtivo darão em nada. Eu não tenho importância. Não tenho valor. Nada tenho a oferecer.

*Não existe D'us. Mesmo que exista, Ele provavelmente não se importa comigo.

O mundo seria melhor se eu não existisse. Sou apenas um fardo para as pessoas. A vida não tem sentido, é injusta e insensatamente trágica e dolorosa.

As pessoas felizes são superficiais, tolas e fora da realidade.

Agora, vamos considerar os dez pensamentos que mais produzem ansiedade:

*Não consigo levar a vida; todos os aborrecimentos, irritações, frustrações e desapontamentos me mantêm num constante estado de ansiedade.

Preciso ser perfeito, ou pelo menos agir de maneira perfeita ao mundo exterior. Se descobrirem como sou imperfeito, serei rejeitado e ridicularizado. Não devo deixar transparecer a ninguém que tenho limitações e falhas.

*Devo ser um completo sucesso. Caso contrário, sou um nada. Todos os erros, até os menores, são indicações do fato de que sou um fracasso. E como não posso evitar os erros, devo ficar ansioso o tempo todo.

*Aquilo que as pessoas pensam de mim é muito importante. Aqueles que me criticam veem como realmente sou. Devo me preocupar com aquilo que os outros estão pensando de mim.

*É meu dever fazer todo mundo feliz e fazer com que todos gostem de mim.

Devo me preocupar sobre o futuro para impedir que aconteçam as coisas sobre as quais me preocupo, e devo dizer aos outros o quanto me preocupo com eles para mantê-los a salvo.

*Devo sentir vergonha de ter erros, dúvidas e sentimentos negativos.

Sou o único que sofre de pensamentos malucos e sentimentos negativos; mesmo que outros sofram, ninguém mais sofre tanto quanto eu.

É perigoso relaxar e ficar feliz; se eu fizer isto, algo terrível vai acontecer.

As pessoas estão sempre me magoando deliberadamente e com maldade.

Se você está habituado a qualquer um desses pensamentos tóxicos, você está convencido, com 100% de certeza, de que são verdadeiros e refletem a realidade objetiva. Você nem sequer percebe que está falando uma linguagem que prejudica a você e aos que o cercam, tão certamente como os cigarros prejudicam os fumantes e todos que os cercam. Você adotou essa linguagem cedo na vida, antes de ter uma opção, por parte dos seus pais, colegas, professores ou irmãos. E você continua repetindo essas crenças durante o dia inteiro, reforçando-as constantemente. Você nem sequer percebe que seu espírito foi aprisionado, como “aqueles que se sentam no escuro, acorrentados em aflição e ferro” (Tehilim 106:10).

Quanto mais entranhadas essas mensagens tóxicas se fizerem presentes em sua mente, mais esforço é necessário para superá-las. Por onde começar?

O primeiro passo é desafiar seu raciocínio. Quando surgir um pensamento em sua mente, acostume-se a perguntar: “Este pensamento é útil e produtivo para mim? Vai me ajudar a atingir meus objetivos? Vai me ajudar a ser uma pessoa melhor?” Se a resposta for “não”, delete-o de sua mente. Então faça isso outra vez, e outra vez – durante a vida inteira! Sugiro que você mantenha uma lista de CSS – Crenças Saudáveis de Substituição – tais como:

*Apesar de meus padrões negativos, tenho o mesmo valor que qualquer outra pessoa na face da terra. Mereço amor, alegria e respeito.

*Mesmo se eu gostasse de ser mais como (fulano de tal...) posso amar e respeitar a mim mesmo como sou, pois eu sou exatamente quem D'us quer que eu seja neste momento.

*Apesar da minha tendência infantil de supervalorizar as opiniões dos outros, posso aprender a aceitar opiniões humanas limitadas com um grão de sal.

*Mesmo que eu tenha medo do futuro, confio que D'us está sempre comigo e me ajudará a descobrir novas possibilidades.

*Mesmo que eu me sinta sobrecarregado e deprimido, posso tomar decisões menores que provam minha capacidade de controlar minha saúde mental e física.

*Embora eu tenha tido muitos desapontamentos, posso tolerar os desconfortos da vida com fé, humildade, compaixão e paciência.

*Mesmo que me sinta enganado e que não estou recebendo tudo que mereço por parte de D'us e das pessoas, prefiro pensar e ter fé de que D'us está me dando tudo aquilo que preciso.

*Mesmo que às vezes me sinta sobrecarregado e deprimido, posso focalizar em pensamentos e ações construtivas.

Assim como não usamos as mesmas roupas que usávamos aos cinco anos de idade, não devemos nos apegar aos mesmos pensamentos que tínhamos então. Quando substituímos as crenças tóxicas pelas CSS, adquirimos estabilidade, serenidade e autorrespeito. E não é tão difícil fazer isto.

Miriam Adahan