segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A capacidade de questionar


             
            Não há palavras suficientes para descrever o mal, não há imagens gráficas, não há uma imaginação suficientemente doentia para descrever aquilo que nossos avós, irmãos e irmãs, filhos e filhas, bebês e crianças ainda não nascidas suportaram nas garras dos seus assassinos.
Seis milhões de judeus foram assassinados por um motivo e um único motivo. Porque eram judeus. Para nossos inimigos, não importava se o judeu era uma pessoa assimilada ou muito religiosa. Um judeu era um judeu.

Nossos inimigos conseguiram arrancar barbas, torcer a pele, empunhar armas, arrancar dentes e gaseificar corpos. Porém não conseguiram penetrar nas mentes, corações, almas e espíritos. A neshamájudaica nunca foi diminuída, apenas enfraquecida.


A cada ano que passa, devemos relembrar o horror, e como o nosso povo morreu. Porém o mais importante, devemos nos lembrar como eles viveram.



Porém o mais notável, talvez miraculoso, é que havia judeus que se apegavam à Torá – o código moral e legal que tem orientado nossa vida desde o Sinai – durante toda a sua provação. Nos guetos, nos campos de concentração, nas marchas rumo à morte, eles continuaram a consultar a Torá em busca de orientação, fazer perguntas aos seus rabinos e líderes espirituais. Do prático ao moral e ao filosófico, as perguntas demonstram a fé que aqueles mártires tinham no seu Criador, e a que ponto desejavam cumprir Sua vontade.

A maioria das perguntas e respostas nunca foi registrada, e sobre o que elas eram, praticamente tudo isso ficou perdido nos escombros e nas cinzas. Felizmente, alguns preciosos volumes sobreviveram, e são um testemunho daquilo que nosso povo tolerou.
[Uma dessas obras é a Responsa do Holocausto, de Rabi Ephraim Oshry.]
Soldados alemães atormentando judeus - Olkusz, sul da Polônia (31 de julho de 1940)

Estes judeus se preocupavam em saber o que deveriam ou não fazer, segundo a Torá. Quando o mundo não fazia mais sentido, eles ainda procuravam certificar-se de que suas ações, palavras e pensamentos eram puros e sagrados. Quando o mundo ignorou D’us e Seus mandamentos, eles determinaram que não o fariam.
Ao ler estas perguntas e respostas, a pessoa fica abalada pela sensibilidade, o carinho e a consideração sobre cada uma. Mas talvez ainda mais notável que as respostas em si seja o próprio fato de que as perguntas nunca foram feitas, e a maneira pela qual estas almas preciosas parecem não ver nada de "heróico" no fato de as estarem fazendo, considerando-se simplesmente judeus vivendo como judeus.

Uma mulher no gueto que tinha acabado de dar à luz queria saber se poderia circuncidar seu bebê antes do oitavo dia, pois ela temia que ele não vivesse sequer uma semana. Esta mãe amorosa desejava assegurar que pelo menos ele morreria como um judeu circuncidado.

As pessoas perguntavam se deveriam ou não recitar bênçãos sobre os alimentos quando a comida não era casher, ou se poderiam recitar as preces matinais antes do nascer do sol, pois esta seria a única hora em que não seriam notadas.

Um homem muito doente foi avisado que estava fraco demais para jejuar em Yom Kipur, e portanto proibido de fazê-lo segundo a Lei da Torá. Ele implorou para saber se mesmo assim poderia abster-se de comer. Embora tivesse sido não observante durante toda a vida, ele queria morrer sabendo que tinha jejuado em seu último Yom Kipur.
Judeus do Gueto de Lublin sendo levados aos trens
para serem deportados para Sobibor, o campo da morte (1942)
Um pai queria saber se poderia salvar seu único filho, selecionado para a morte certa, por meio de suborno, sabendo que caso seu filho fosse salvo, outro morreria em seu lugar.

Uma mãe perguntou se poderia matar seu bebê de maneira indolor, pois no dia seguinte eles viriam pegar todas as crianças, e talvez atirassem sua filha de três meses de um telhado ou então diretamente no fogo.

Havia judeus que perguntavam as frases certas, e depois praticavam cuidadosamente a bênção que é recitada quando alguém está sendo assassinado al kidush Hashem, pela santificação do nome de D’us.

Estas questões não foram respondidas com base em opiniões ou sentimentos pessoais. Estes judeus queriam saber o que a lei da Torátinha a dizer sobre estes temas, e era obrigação dos rabinos encontrar as respostas. Esta não era a primeira vez que estas perguntas tinham sido feitas ou respondidas. Somos um povo que sabe muito sobre sofrimento e perseguição. E somos um povo que sempre quis fazer aquilo que é certo, o que é sagrado, independentemente das circunstâncias.

A cada ano que passa, devemos relembrar o horror, e como o nosso povo morreu. Porém o mais importante, devemos nos lembrar como eles viveram. E ao fazê-lo, honramos a dignidade, o poder e a fé que estes judeus tiveram. A coragem da fé é muito mais poderosa do que a covardia do ódio.

Nossos inimigos tentaram nos tornar untermenschen– sub-humanos. Tentaram nos aniquilar, livrar o mundo dos judeus. Mas eles não sabiam com quem estavam lidando. Não sabiam o que significa ser judeu. Pois o judeu não é aquele que meramente se esforça para ser humano. O judeu é aquele que se esforça para ser Divino. E isso nunca, nunca, pode ser destruído.

Sara Esther Crispe
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Sara Esther Crispe é escritora, conferencista inspirada e mãe de quatro filhos. Ela e o marido, Eabi Asher Crispe, atualmente são eruditos-residentes no Chabad do Sudoeste da Flórida.
           
           
                                              

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O melhor alimento do mundo.


O MELHOR ALIMENTO DO MUNDO


É comum nos dias de hoje ouvirmos as pessoas falarem acerca da necessidade de se manter uma alimentação saudável. Dizem os especialistas, que ela deve ser balanceada, a fim de conter o máximo de nutrientes possíveis sem que haja a necessidade de ser consumida excessivamente.
Os benefícios dessa dieta alimentar são evidentes e na maioria dos casos inquestionáveis, exceção feita aos exageros a que alguns se entregam no afã de terem o corpo desejado, segundo o estereótipo idealizado pela sociedade atual.
Apesar de todos os benefícios apresentados, muitos não têm o menor interesse em praticá-la, outros ainda, com o decorrer do tempo acabam negligenciando-a e um sem número de adeptos a abandonam completamente, por entendê-la “complicada” demais.
No âmbito espiritual a situação não é muito diferente.
A Palavra de Deus, a Bíblia, deve ser o nosso principal alimento diário. A sua “ingestão” provoca em nós reações inquestionáveis de bem-estar, paz e alegria, pois trata-se do melhor alimento do mundo. No entanto, até mesmo o Povo de Deus em dado momento acabou deixando-o de lado e depois da “desnutrição” aparente, procurou de todas as formas voltar-se a Ele e ser “alimentado” por Sua Palavra.
Um bom exemplo disse pode ser visto no exílio em Babilônia.
Durante muitos anos o povo de Israel ficou cativo em Babilônia, mais precisamente 70 anos, mas através de um decreto do rei Ciro, Esdras e Neemias foram recrutados para regressarem a Israel a fim de reconstruírem os muros da Cidade de Jerusalém e o Templo Sagrado.
Durante a narrativa do capítulo 8 do Livro de Neemias (8.1-18) percebemos que aquelas pessoas tinham um desejo real em ouvir a Palavra de Deus.
No versículo 3 vemos que os ouvidos do povo estavam atentos ao Livro da Lei: E leu no livro, diante da praça, que está fronteira à Porta das Águas, desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres e os que podiam entender; e todo o povo tinha os ouvidos atentos ao Livro da Lei.”

“... atentos ao Livro da Lei”. Quantos de nós, hoje em dia, temos estado com os ouvidos atentos ao que a Palavra de Deus nos revela?

Certamente poucos.
Vivemos em uma época na qual as transformações sociais e tecnológicas ocorrem com uma velocidade espantosa. Desenvolve-se um determinado equipamento em um dia e no seguinte está praticamente sucateado e com essas mudanças tão rápidas não estamos acostumados a realmente prestar muita atenção aos acontecimentos cotidianos.
Vivemos na época do consumismo por excelência. Buscamos conforto para nossos corpos cansados e para a nossa mente à beira de um estresse profundo; desenvolvemos carros confortáveis, velozes e teoricamente seguros; equipamos nossos policiais com armas cada vez mais potentes e mortais e, apesar de nossos mais sinceros esforços, percebemos que de certa forma as pessoas vivem sedentária e isoladamente e têm cada vez mais necessidade de recorrer a remédios para dormir. Os crimes e a violência aumentam a proporções inacreditáveis no mundo inteiro.
Buscando os motivos que levaram aquele povo a ser escravizado durante tanto tempo podemos perceber que um deles – senão o principal – foi porque seus ouvidos não se preocupavam mais em “estar atentos” ao que Deus lhes falava.
E esse é um comportamento comum ao ser humano: desde a criação, o homem parece disposto a ouvir a tudo e a todos, menos ao seu Criador.

Muitas vezes o motivo de nosso sofrimento está relacionado intimamente ao fato de não darmos ouvidos ao que Deus nos fala.

Provérbio 16.25 diz que: “Há um caminho que ao homem parece perfeito, mas ao fim conduz à morte.”

À medida que o Livro era lido, o povo chorava, porque o que estava sendo relatado não era uma estorinha para crianças dormirem nem um conto folclórico para distrair seus ouvintes, mas a sua própria história daquele povo.
Durante aquela narrativa emocionada e reveladora puderam perceber o quanto Deus os amava e o quanto eles O desprezavam. Puderam perceber o quanto Ele procurava estar com eles e o quanto se afastavam dEle.
Deus levantou um homem, Abraão, para dele fazer uma grande nação que o adorasse e servisse. Deu-lhe poder, riqueza e sabedoria que confundia os seus adversários infinitamente mais numerosos, que não compreendiam como aquele pequeno povo conseguia vencer seus oponentes e se transformava cada vez mais em um Povo forte e temido após cada batalha.
Perceberam durante aquela narrativa o quanto estavam distantes daquele Deus maravilhoso e amoroso que os chamara para transformá-los em uma nação sacerdotal.
Choravam porque percebiam que apesar de tudo que haviam feito Ele ainda estava com eles.
Aqueles homens puderam perceber que o livramento que Deus lhes concedera e as vitórias nas guerras sobre os seus vizinhos era a mais pura demonstração de Seu amor por eles.

Hoje, através dos materiais de estudo disponíveis, podemos contemplar de forma clara, tudo aquilo que aconteceu àquele povo: as suas vitórias e derrotas, as lutas travadas contra seus inimigos e principalmente as lutas travadas contra si mesmos.
Lutar contra os inimigos externos é muito mais fácil do que lutarmos contra nós mesmos.
Contra um inimigo visível, empunhamos as armas e guerreamos. Se formos mais fortes e ágeis conquistaremos a vitória, mas contra nossos sentimentos, vaidades e pecados a coisa é bem diferente e por vezes a luta se torna mais cruenta do que a princípio podia parecer.

Você tem estado com os ouvidos atentos às Palavras que estão contidas na Palavra de Deus?
Aqueles homens perceberam que se tivessem dado ouvidos àquilo que Deus lhes falara, não teriam sofrido tanto, nem passado por tantas humilhações. Se tivessem estado com os ouvidos atentos, como agora estavam, teriam tido uma vida de vitórias e alegrias que somente Deus pode proporcionar.
Diante da comoção geral, Neemias levanta a voz e conforta seus corações para que não chorassem, mas se alegrassem, pois a sua força estava no fato de se alegrarem na presença do seu Deus.
Quando buscamos a Deus com sinceridade podemos perceber a transformação que ocorre no nosso interior:
As lutas parecem menores, os inimigos não são tão fortes assim, as dificuldades não são tão grandes como pensávamos, porque passamos a confiar que Deus está ao nosso lado, lutando por nós, assim como diz Isaías 43.13 “Agindo Eu, quem impedirá?”

Neste episódio narrado por Neemias podemos extrair ensinamentos preciosos para nos alegrarmos no Senhor:

Precisamos estar atentos para ouvir a voz de Deus (verso 3)
E leu no livro, diante da praça, que está fronteira à Porta das Águas, desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres e os que podiam entender; e todo o povo tinha os ouvidos atentos ao Livro da Lei.”

Hoje em dia ouvem-se muitas vozes, muitas sendo proclamadas em nome de Deus, mas com o tempo percebemos que não condizem com aquilo que realmente Deus disse ao seu povo.
Quando buscamos a Deus em oração, falamos o tempo inteiro e não paramos para ouvir aquilo que Deus tem para nos dizer.
Muitos dizem não saber como é o timbre da voz de Deus, isso não é um problema porque nenhum de nós jamais ouviu materialmente a voz de Deus, mas certamente todos nós podemos ouvi-la através das páginas da Bíblia, que é o Manual de Deus para o ser humano. Ele nos criou e conhece cada parte do nosso corpo e alma e sabe do que necessitamos para termos uma vida plenamente feliz e realizada.
Quando estudamos a Palavra de Deus com amor é como se a voz do próprio Deus penetrasse em nossos ouvidos e descesse até o íntimo de nosso ser, lavando-nos e purificando-nos de todas as incertezas da vida presente.

Devemos ter reverência diante da Palavra de Deus (verso 5)
“Esdras abriu o livro à vista de todo o povo, porque estava acima dele; abrindo-o ele, todo o povo se pôs em pé.”
Muitas pessoas encaram a Palavra de Deus como um livro qualquer que pode ser deixado de lado quando dele não se faz uso.
Certa vez ouvi alguém dizer que a Bíblia quando está fechada é como um livro qualquer, porém adquire poder e vida quando a abrimos e meditamos em seu conteúdo.
Para nós, judeus, todavia, a Palavra de Deus é digna da maior reverência.
Quando nós, judeus, que somos chamados através dos séculos como o Povo do Livro, colocamos a Torá na estante, Ela deve ficar no lugar mais alto e na frente dos outros livros.Ela tem a primazia.
Após estudar a Torá e outros livros, os mestres da Torá e os religiosos, arrumam os livros sobre a mesa, porém a Torá deverá ficar na parte mais alta, sobre todos os demais.
Quando a Torá começa a se desfazer pelo uso e começa a ficar difícil de ser manuseada ela não é jogada no lixo como um “livro qualquer” nem é vendida como papel para ser reciclada, mas é enterrada em um cemitério, com toda a reverência que e a Palavra de Deus merece.

Precisamos conhecer verdadeiramente a Palavra de Deus (verso 8)
“Leram no livro, na Lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia.”
Só existe uma maneira de conhecer verdadeiramente a vontade de Deus: Estudando a Sua Palavra.
“Lâmpada para meus pés é a tua Palavra” diz o Salmista Davi (Salmos 119.105).
Quando conhecemos a Palavra de Deus conseguimos compreender tudo o que acontece à nossa volta, os problemas que enfrentamos, as lutas que travamos e as vitórias que conquistamos.
Aqueles homens ficaram muito tempo afastados dessa Palavra, mas ao primeiro contato já sentiram a necessidade de vivê-La.
O mesmo deve acontecer conosco. Não basta apenas conhecer a Palavra de Deus é necessário vivê-La com toda intensidade.

Devemos nos alegrar na presença de Deus (versos 10-18)-
Agora eles sabiam que Deus estava no controle e que a partir daquele momento cumpririam com alegria a Sua vontade.
Durante a celebração da festa dos Tabernáculos ou Sucot (Cabanas) deixamos o conforto material de nossas casas e construimos cabanas e nelas habitamos por sete dias, para recordarmos que Deus manteve o povo de Israel por 40 anos no deserto, alimentando-o, protegendo-o e fortalecendo-o para conquistarem a tão sonhada terra da promessa.
Por essa razão, quando você estiver diante de um grande problema ou simplesmente estiver se sentido desamparado e perdido, não desanime nem se entregue ao abatimento, acreditando que não há ninguém que se preocupe com você e com a sua situação, busque conhecer e praticar a Palavra de Deus e verá o quanto você é importante para Ele.
Conheça o que Deus tem para aqueles que O buscam e você verá que grandes coisas o Eterno fará através de sua vida.

Querido amigo (a), nunca deixe de se alimentar da Palavra de Deus.
Ela é o melhor alimento que podemos encontrar neste mundo.

Como diz o Salmista: “Oh! Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais doces do que o mel à minha boca.” (Salmos 119.103)

Muita paz a todos!                    

(בן  ברוך) Ben Baruch