domingo, 3 de fevereiro de 2013

Afinal, Cristão ou Judeu?

Afinal, cristão ou judeu?

Vez ou outra sou confrontado por amigos e conhecidos acerca da decisão que tomei de optar por alguns anos, pelos ensinamentos do Judaísmo em “substituição” – dizem eles, ao Cristianismo, quer seja ele Evangélico ou Espírita.
Para muitos é de suma importância que alguém que busque identificar-se com Deus o faça dentro de Templos religiosos, pois assim estarão mais “conectados” ao Eterno.
Particularmente, também pensei assim durante um longo período, mas diante dos exemplos, testemunhos, relatos, pronunciamentos... (escolham o termo que acharem mais conveniente, convincente ou apropriado) de líderes e membros desses grupos, entendi que o melhor, pelo menos neste momento, é apenas buscar ao Altíssimo que é conhecedor profundo de cada um de nós e não me preocupar com títulos ou estereótipos.
Extremismos não podem nos levar a um pleno conhecimento de Deus, que é Amor por excelência e sendo a própria essência do mesmo não pode ver suas criaturas de maneira diferente, por essa e por outras razões entendo que todos temos ou teremos a oportunidade de nos conectarmos a Ele e sermos felizes nesta vida física ou na espiritual, pois para isso fomos criados. 
Chamam Teólogos Liberais os que assim pensam? Pois bem, nesse caso podem me considerar um deles, pois foi a esse entendimento que meus estudos e a intimidade com Deus me conduziram.
Talvez a melhor maneira de expor essa questão seja transcrever parte de um e-mail que enviei para uma pessoa muito querida que tendo origem judaica também passou pelos mesmos questionamentos, e para não dizer, indiferença, indignação e reprovação por parte de seus amigos e familiares judeus quando decidiu buscar respostas fora da religião familiar.

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“Certa vez disse a você que gostava muito da coerência da Doutrina Espírita, isso no que se refere à possibilidade das várias existências, ao contrário do Judaísmo que a aceita apenas para casos especiais e do Cristianismo Evangélico/Católico que não as aceita de forma alguma. Outro ponto positivo da Doutrina Espírita quando comparado ao Judaísmo é o fato de não ver em Jesus a pessoa de um Salvador pessoal ou de um "deus" encarnado, pois pra eles a trindade divina não existe, mas ela tem a questão da comunicação mediúnica que no meu entender pode oferecer enganos e em alguns casos, desmandos. Vou explicar.
Quando você entra em contato com o mundo espiritual está pisando em terreno desconhecido. O mundo invisível, ao contrário do visível, pode fazer com que qualquer entidade espiritual se apresente da forma que bem desejar. Ao contrário dos Evangélicos e Católicos, acredito que a possibilidade de comunicação exista, pois foi proibida na Bíblia, mas não sei até que ponto ela é confiável. Já presenciei embustes, apesar da sinceridade dos médiuns e dirigentes das Casas Espíritas e a alegação dada por alguns espíritas de que essa proibição bíblica teve origem no fato de os hebreus frequentemente buscarem a comunicação com seus mortos no cemitério, para resolverem questões pessoais, não me parece muito convincente. Como você, até mesmo os muçulmanos conseguem encontrar "provas" bíblicas de que eles, e não os judeus, são a descendência prometida a Abraão, ou seja: sempre que uma doutrina quer ser aceita e considerada séria pela maioria, busca embasamento bíblico para suas teorias e práticas. Isso é fato e vemos isso todos os dias.
De certa forma, apesar de os espíritas não crerem em Jesus como Messias, Salvador, deus ou outro título que possam lhe atribuir, crêem que ele é o governador espiritual da Terra e que tudo e todos lhe estão subordinados, quer sejam encarnados ou desencarnados.
Estou pensando em escrever um trabalho com o título "Por que judeu?", pois muitos amigos me perguntam o porquê de eu ter escolhido esse caminho e não outro segmento ligado ao Cristianismo. Sei que quando fazem esta pergunta estão imbuídos dos melhores sentimentos, mas para eles, que passaram a vida inteira crendo que Jesus é o Filho unigênito de Deus, que nasceu de uma virgem (embora o texto em hebraico de Isaias 7.14, fale em "mulher jovem" (almá) e não uma “jovem virgem” (betulá): "Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem (almá) conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel." No meu caso passei a maior parte de minha vida acreditando que Jesus era apenas mais um filho de Deus e não o próprio Deus encarnado e somente depois de entrar para o Seminário Teológico (1994) foi que recebi esse tipo de ensinamento, que sinceramente nunca conseguiu ficar claro em minha mente e sempre que eu perguntava acerca da trindade a resposta clássica que recebia era de que Deus tem essa “estranha capacidade” de ser 1 em 3 e 3 em 1 ao mesmo tempo, e quando discordava por não conseguir racionalmente entender, diziam que eu precisaria tomar cuidado para não blasfemar contra o Espírito Santo de Deus e vir a perder definitivamente a minha salvação.
Difícil estabelecer um diálogo quando tudo que é contrário ao pensamento e crença são jogados para no terreno da fé cega e do "medo" de desagradar a Deus e ser considerado um herege.
Essa posição e a questão da comunicação com os mortos foi que me levou a optar pelo Judaísmo, onde a visão e o conceito de Deus é inteiramente monoteísta. Sei que há também muito misticismo judaico, atitudes sem sentido que a tradição tornou algo importante na vida de seus seguidores, mas que não estão expressos na Torá como um todo, mas para mim, que nunca cri em imagens, amuletos, palavras mágicas e coisas do gênero, encaro tudo isso com respeito pelos que assim crêem e não costumo questioná-los sobre isso, me posiciono apenas quando solicitado e mesmo assim procuro usar palavras brandas que orientem ao invés de criticar.
Estamos vivendo um período conturbado tanto na sociedade quanto nos grupos fechados: família, templos religiosos, onde todos querem buscar algum tipo de alívio para suas dores emocionais. Acredito que apesar de muitos buscarem na religião o auxílio para problemas financeiros, no fundo o que eles buscam, sem o saberem, é encontrar a paz que só pode ser alcançada em Deus. Alguns, mesmo estando em lugares errados, onde se deturpam os ensinamentos Divinos, com o tempo são alcançados por Ele e acabam refletindo melhor acerca do verdadeiro caminho que nos conduz a Ele. Outros, no entanto, passam a vida inteira buscando algo inexistente, pois desejam apenas alimentar seus prazeres e tudo que for contrário a isso é taxado de fanatismo religioso, pois coloca um freio nos desregramentos que eles buscam e querem a todo custo que a "religião" os aceite e ratifique.
Não creio que Jesus tenha sido o Massiach (Messias), por diversas razões teológicas, nem que o homem chamado Jesus, que viveu entre nós, seja o governador espiritual da Terra. Dizer isso para quem desde o berço foi ensinado de maneira diversa é muito difícil. É como desejar que uma criança palestina, que nasceu em 1949 e que foi ensinada a odiar os judeus por serem eles os "ladrões" de sua terra "ancestral", ame um judeu ao vê-lo pela primeira vez. Vê-lo feliz e alegre, naquele que seria o seu "território nacional", enquanto ele, que no seu entendimento, teria esse "direito nacional" e que muitas vezes é privado do necessário à sobrevivência é demais para ele.”
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Existe uma máxima judaica que diz: “Não tenha receio de expor suas convicções com medo de não serem aceitas, mas lembre-se que ninguém é dono exclusivo da verdade, sendo assim, espelhe-se na Natureza e considere um importante princípio: assim como o Sol, seja forte, claro e constante naquilo que julga ser o certo, mas também seja como a Lua, cresça e mude todos os dias!“.

Muita paz a todos!
(בן  ברוך) Ben Baruch