sexta-feira, 29 de maio de 2015

Uma visão íntima da intimidade

                  

            A sabedoria convencional diz que a sexualidade é um instinto natural. É uma atividade humana muito comum e inocente, é o que acontece entre um homem e uma mulher, é o que as pessoas fazem, e tudo que precisamos fazer é relaxar e aproveitar, certo?

Parece tão simples. Mas se fosse tão simples, por que precisamos ser lembrados muitas e muitas vezes que é natural, é inocente, é prazeroso, é isso que fazemos, é o que acontece, relaxe e aproveite? Na verdade, a mídia tem nos bombardeado com essa mensagem durante tanto tempo e de tantas maneiras diferentes com tamanha engenhosidade que você se pergunta por que a mensagem não foi aceita. Por que ainda nos sentimos tão pouco à vontade, tão inseguros, tão mistificados pela nossa própria sexualidade?

No mundo criado pelo Todo Poderoso, há três condições. Primeira, existe a condição mundana, secular, diária – coisas simples e comuns que possuímos. Segunda, há a condição sagrada, Divina – tão celestial que não temos essas coisas. Estas duas partes, até agora, são facilmente entendidas e aceitas. A parte difícil é a terceira condição, a sagrada. Embora sagrada signifique separada e indisponível, o sagrado não é totalmente indisponível. O sagrado é aquilo que é mais santo que o comum, mas não tão sagrado que não possamos abordá-lo de maneira alguma. É algo entre aquilo que temos e aquilo que não podemos ter.

Confuso? Deixe-me usar um exemplo simples. O Todo Poderoso nos concede a bênção de filhos. Seus filhos. Meus filhos. Porém quando dizemos "meus filhos", é um "meus" possessivo? Eu possuo meus filhos? A resposta, certamente, é não. Eles não são realmente meus. Não pertencem a mim. Quando digo "minha mulher", isso é algo possessivo? "Meu marido" significa que algo pertence a mim? É claro que não. E mesmo assim, podemos usar um termo tão familiar como "meu" ao nos referir a estas coisas na vida. É a santidade na vida, e se não formos cuidadosos, em nossa arrogância, podemos alegar posse de coisas que jamais pertencerão a nós, e perder sua santidade.

Então, onde entra a sexualidade nisso tudo? Por sua própria natureza – não por decreto Divino, não pela crença religiosa ou ditame – a sexualidade pertence à arena do sagrado. Nós a experimentamos, mas não podemos possuí-la. Podemos ir até lá, mas lá não é o nosso lugar. Podemos ser sexuais, mas não podemos possuir nossa sexualidade. O motivo disso é muito natural e muito básico. Ser íntimo significa ir a um local que é particular, sagrado, que é reservado. A sexualidade significa uma pessoa entrando na parte privada, sagrada da existência de outro ser humano.

Você não pode possuir a intimidade de outra pessoa. Mesmo que a pessoa deseje dar posse.
Não pode fazer isso. Não é partilhável. É uma daquelas coisas na vida que o Todo Poderoso nos dá que jamais podemos possuir. Não posso possuir meus filhos. Não posso possuir meu cônjuge. Não posso possuir meu Criador. Nem sequer posso possuir minha vida. E certamente, não posso possuir a parte intrínseca, sagrada e impartilhável de outra pessoa.
Bem, se isso é indisponível, se não posso possuí-lo, então que conexão, que relacionamento eu tenho com isso?
Esta é a santidade que podemos experimentar, mas não podemos ter. E é por isso que o prazer nas relações íntimas é mais intenso que qualquer outro prazer. Você pode apreciar uma boa refeição. Pode apreciar a boa comida, é um grande prazer, mas não é o prazer da sexualidade porque você possui a comida. É sua. Você plantou os vegetais, cultivou-os, colheu e os saboreou. São seus. Não há reverência envolvida. O prazer da sexualidade é ser uma combinação de ter e não ter. É uma combinação do comum e de algo de outro mundo ao mesmo tempo. É algo a que você tem direito, mas não pode ter e possuir. E quando você sente essa combinação, o prazer de estar no espaço íntimo de outra pessoa enquanto ao mesmo tempo se lembra que ali não é o seu lugar – não é e jamais poderá ser o seu lugar – é isso que torna a sexualidade diferente.

A palavra chave é familiaridade. Com o sagrado, você não pode dar-se ao luxo de se familiarizar. Com o realmente Divino, não há perigo. Está fora do seu alcance – pode esquecer. Com o secular e o mundano, bem, você deveria se tornar familiarizado. Portanto, onde a familiaridade gera desprezo? Onde a familiaridade é realmente destrutiva e indesejável? Na santidade. Se você tornar-se familiarizado, muito familiarizado, com a intimidade da vida de outra pessoa, seja física, emocional ou mentalmente, então você comprometeu a santidade.

Em nosso mundo “diga-tudo-às-claras”, visualizar o poder de destruição da familiaridade pode ser difícil. Porém você não chama seus pais pelo primeiro nome… porque é familiar demais. Não usamos o nome do Todo Poderoso em vão… porque é familiar demais. E para nossos avós e bisavós, relações íntimas eram algo sagrado, sobre o qual não se falava… porque isso seria familiar demais. O relacionamento entre marido e mulher ficava restrito atrás de portas fechadas. Era algo sagrado, algo que não se desperdiçava, partilhava ou sequer falava a respeito. É por isso que nossos avós não podiam falar sobre o relacionamento deles. Não estavam guardando segredos – estavam guardando algo sagrado.

Hoje em dia, a sexualidade humana é algo com o que espera-se que você esteja familiarizado. Alegamos já estar familiarizados com nossa sexualidade e temos vergonha de admitir que não estamos. Removemos a santidade, tudo porque pensamos que nossos severos pais estavam guardando um segredo de nós. A mídia continua a nos bombardear com essas mensagens sutis, brilhantes, da "naturalidade" e "abertura" da sexualidade humana, e isso não está nos convencendo. Por mais que tentemos, não podemos ignorar aquilo que nossos avós sabiam: o leito nupcial é algo sagrado e a única maneira de dar certo é quando você o trata com santidade.
Ainda precisa de provas? Olhe mais de perto para os mesmos avós. Aquelas duas pessoas, que estiveram casadas durante cinquenta, sessenta ou até setenta anos, ainda ficam um pouco tímidas entre si. Ainda têm vergonha uma da outra. Ainda excitam uma à outra, Isso é sexualidade humana. Isso é santidade. E esta é a última palavra em intimidade.
Manis Friedman
Fonte: Chabad

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