sábado, 29 de agosto de 2015

Quem vai salvar o bebê?

Se alguém no Gueto de Cracóvia jamais teve uma chance de sobreviver ao Holocausto, foi Avraham Shapiro. Aos 22 anos, ele era um jovem inteligente e engenhoso cuja mente tinha sido cultivada durante anos de estudo na yeshivá. Ele sabia que os alemães estavam dispostos a aniquilar todos os judeus, e tomou as precauções necessárias para salvar a si mesmo e seus pais idosos. Conseguiu documentos de identidade falsos de primeira qualidade para os três membros da família, como estrangeiros. Construiu e estocou um bunker num local afastado, por baixo do gueto. Procurou um mapa dos esgotos e planejou uma fuga para o dia em que o gueto seria liquidado. Seu plano mestre era escapar para a Hungria, onde estaria seguro.
Então um dia uma vizinha de 18 anos, Chaya Rivca, bateu à porta de Shapiro segurando um bebê. A criança, com 20 meses de idade e que não podia ficar de pé nem sentar-se por si mesmo, era seu sobrinho Chaim. Seus pais tinham sido mandados para Treblinka. Chaya Rivca sabia que os Shapiro tinham documentos de cidadania estrangeira. Ela calculara que de todos os judeus do Gueto, os Shapiro tinham a maior chance de escapar. Ela tinha abordado a família Shapiro diversas vezes, pedindo-lhes para levar o bebê com eles em segurança, mas eles tinham recusado. Um bebê seria provavelmente algo que colocaria em risco suas próprias chances de sobrevivência.
Porém este dia – 11 de março de 1943 – foi diferente. Chaya Rivca tinha recebido um aviso de que estaria sendo deportada a um campo de trabalho. Ela simplesmente não podia levar o bebê junto. Com soluços de cortar o coração, ela implorou a Avraham, que era o único em casa naquele momento, para levar o bebê. Avraham – o pensador lógico, o planejador cuidadoso – estava preparado para superar os nazistas, mas naquele dia ele superou seu próprio caráter. Como ele declararia mais tarde: "Minha compaixão dominou meu intelecto, e decidi aceitar a criança."
Quando seus pais chegaram em casa e viram Avraham com o bebê no colo, ficaram consternados. Como podia ele colocar três vidas em perigo por causa de um ato de compaixão impensada? Avraham respondeu que o bebê agora era dele, e ou a criança escapava com eles, ou permaneceriam todos no gueto condenado.
A necessidade imediata de Avraham era forjar uma certidão de nascimento provando que o bebê era seu. Ele conhecia um rabino que tinha um carimbo oficial, mas onde encontrar um formulário? De alguma forma Avraham conseguiu encontrar uma máquina de escrever. Ele jamais tinha datilografado na vida, mas ficou acordado a noite toda, e ao raiar do dia tinha produzido uma certidão de nascimento passável.
"Naquele momento," escreveu Avraham mais tarde, "nascia um filho para Avraham Shapiro."
"Todos nós juntos!"
Dois dias depois os alemães liquidaram o Gueto de Cracóvia. Reuniram os judeus numa grande praça e os dividiram em dois grupos para deportação: os jovens para o trabalho, os idosos para asilos, e as crianças para residências infantis. Avraham sabia que tudo não passava de uma farsa. "Jamais acreditei nos alemães e sempre tentei fazer o contrário daquilo que eles diziam."
Quando alguém tentou tirar o bebê dele, Avraham recusou-se a entregá-lo, gritando: "Todos nós juntos!"
Naquele dia seria impossível alcançar o bunker que ele tinha preparado porque ficava na outra metade do gueto, separado por uma cerca de arame farpado. Avraham entregou o bebê para sua mãe e disse aos pais para não cederem. Ele encontraria um esconderijo temporário e voltaria para apanhá-los.
Após uma busca desesperada, ele encontrou um prédio vazio com degraus que iam da entrada até um porão. Em meio ao perigo, ele conseguiu levar seus pais e o bebê para lá. Avraham sabia que os alemães procurariam em todos os prédios e porões, mas a Divina Providência tinha fornecido a eles uma proteção insuspeita. Alguém no edifício tinha tido problemas de encanamento, e nas circunstâncias desesperadas do gueto não pudera encontrar um encanador. Portanto, tinham enchido um barril enorme com os dejetos do banheiro, e colocado o barril na escadaria. Com grande esforço, Avraham conseguiu virar o barril, derrubando excremento em todos os degraus que levavam ao porão. Ele calculou que os altivos germânicos não estariam dispostos a sujar as botas para procurar judeus.
Naquela noite ele ouviu os alemães entrarem no prédio. Para impedir que o bebê chorasse, o que os denunciaria, eles tinham planejado dar-lhe comida, mas tinham apenas chalá seca sem água para amaciá-la e torná-la comestível. Portanto Avraham e seus pais mastigaram rapidamente a chalá, cuspiram, e alimentaram o bebê com os pedaços amolecidos. Eles ouviram os nazistas reclamando do mau cheiro. Avraham estava certo; eles não se dignaram a descer até o porão.
Foi naquela noite, após a liquidação do gueto, que Avraham tinha planejado escapar através dos esgotos até o "lado ariano" de Cracóvia. Olhando para o bebê, no entanto, ele se viu frente a frente com um dilema. Ele ouvira falar de judeus que tinham fugido pelos esgotos com os filhos, e as crianças tinham sufocado no caminho. Não, decidiu ele, não arriscaria a vida do bebê escapando pelos esgotos. Teria de pensar num plano diferente.
Avraham sabia que eles não poderiam ficar no porão por muito tempo. Eles teriam de ir até o bunker que ele tinha preparado, mas uma cerca de arame farpado bloqueava o caminho. Avraham usando um canivete e força sobre-humana conseguiu cortar o arame e fazer um buraco na cerca. Correndo sem parar pelas ruas, vazias de pessoas vivas, mas coalhadas de corpos de judeus, a família Shapiro conseguiu chegar ao bunker.
Avraham tinha instalado previamente uma lâmpada elétrica, cortando fios da parede de seu apartamento e conectando-os no bunker. No entanto, não havia como canalizar água. Todos os dias Avraham tinha de subir e apanhar água de uma torneira. Um dia foi apanhado, Apesar de seus protestos de que eram cidadãos estrangeiros com os documentos para provar isso, os três e mais o bebê foram enviados à prisão da Gestapo.

O fogo do Amor
Usando uma cigarreira de ouro pesando 250 gramas, eles conseguiram subornar um guarda e sair da prisão. Fugiram imediatamente de Cracóvia para uma aldeia nas proximidades, onde alugaram um quarto para se esconder. Era outono, 1943. A Hungria era praticamente o último país na Europa onde a "Solução Final" não fora implementada. Contrataram um guia para contrabandeá-los pela fronteira até a Eslováquia, e de lá para a Hungria.
Durante a jornada eles se alimentaram de batatas cruas, que mastigavam, regurgitavam e davam para o bebê. A noite do Shabat, 28 de outubro, encontrou-os no meio da floresta próxima à fronteira polonesa. A família estava cansada, com frio, e com medo de ser descoberta. O guia anunciou abruptamente que teriam de passar a noite ali porque não poderiam cruzar a fronteira naquela noite. E sem mais uma palavra, o guia desapareceu.
Os Shapiro começaram a se arrumar para dormir. Avraham, que tinha carregado Chaim o tempo todo, percebeu de repente que o bebê esta mole, silente, e não se movia. Retirou rapidamente as roupas dele e viu que o bebê estava azulado.
Tremendo de medo, Avraham juntou madeira e galhos e acendeu um fogo para aquecer o bebê de volta à vida. Era um ato de requintada irracionalidade. O fogo era um anúncio de seu paradeiro, mas a compaixão de Avraham mais uma vez dominou seu intelecto. Ele segurava o bebê o mais próximo do fogo que podia sem arriscar sua segurança, virando-o de um lado para o outro, enquanto a Sra. Shapiro secava e aquecia as roupas do bebê.
Chaim reviveu. Recuperou a cor e começou a se mover. E Avraham que muitas vezes já tinha arriscado a vida durante o Holocausto, se lembraria desses minutos com medo pela vida do bebê como os mais traumáticos da guerra.
Eles esperaram durante todo o Shabat, perguntando-se se o guia iria voltar. Quando caiu a noite, o guia apareceu. Quando viu as cinzas da fogueira, ficou furioso pela falta de cuidado deles.
Estava na hora de prosseguir rumo à fronteira. Para impedir a repetição da calamidade, Avraham pegou um lençol e amarrou o bebê junto ao peito, de frente para ele. Assim ele podia verificar o bem-estar de Chaim, embora seu campo de visão ficasse prejudicado. Caminhando sobre pedras e terreno acidentado, que não podia ver, Avraham a certa altura tropeçou, rasgando a sola do sapato. Amarrou alguns trapos ao redor do pé e continuou andando. Horas depois cruzaram a fronteira da Eslováquia.

"Para o bem da criança"
Finalmente os fugitivos chegaram a Budapeste. Foram alojados em bairros de refugiados. Uma operária judia, ao saber que eles estavam com um bebê órfão que não era deles, sugeriu que o entregassem à família Schonbrun, um casal judeu religioso sem filhos e muito rico.
No Gheto
Dessa vez o intelecto e a compaixão de Avraham convergiram. O pequeno Chaim, agora com dois anos, era mal nutrido e doentio, e ainda não conseguia sentar-se sozinho. Avraham sabia que o bebê precisava de um lar estável e normal, onde recebesse três refeições por dia e estivesse a salvo do perigo que ainda pairava sobre a família Shapiro. Ele ficou impressionado, não com a luxuosa mobília da casa, mas pelas enormes estantes repletas de livros sagrados. Confiante de que estava fazendo o melhor para Chaim, Avraham entregou o menino aos Schonbrun.
Quando Avraham ocasionalmente encontrava o Sr. Schonbrun na sinagoga e perguntava sobre Chaim, recebia apenas respostas evasivas. Avraham deduziu que o casal não queria que Chaim soubesse de seu passado. "Distanciei-me da família,"escreveu Avraham, "para o bem da criança."
Em 19 de março de 1944, os alemães dominaram a Hungria. Numa noite de Shabat dois meses depois, Avraham e seu pai foram apreendidos na sinagoga. Foram transferidos de um local para outro até que finalmente foram colocados num vagão de carga fechado que ia para Auschwitz. Com uma faca que comprara de um sapateiro, Avraham conseguiu aumentar o tamanho de uma janela minúscula no vagão. Enquanto o trem corria pela Eslováquia a caminho do campo da morte, Avraham e seu pai saltaram.
Eles passaram o resto da guerra na Eslováquia, disfarçados de gentios. Assim que os russos libertaram a Eslováquia, Avraham e seu pai voltaram a Budapeste, para a casa onde tinham deixado a Sra. Shapiro há quase um ano. Quando abriram e porta, a encontraram sentada à mesa comendo um pedaço de matsá. Era o primeiro dia de Pêssach, a Festa da Liberdade.

A caixa
Apenas uma vez na Budapeste do pós-guerra Avraham avistou o pequeno Chaim. A criança estava andando (sim, andando!) na rua com a babá. "Meus olhos se encheram de lágrimas," escreveu Avraham em suas memórias, "mas não me aproximei do menino."
A Hungria comunista não era lugar para judeus religiosos. Pouco depois da guerra, os Schonbrun partiram para a Bélgica, depois Montreal, no Canadá, onde Chaim cresceu e por fim se casou. Em 1950, Avraham Shapiro casou-se e foi morar em Israel.
Porém a trama de suas vidas, tecida junto por uma compaixão mais forte que a lógica ou mesmo o amor à vida, não foi cortada. Avraham procurava sempre se informar sobre Chaim, e a Divina Providência conspirou para que a tia da mulher de Chaim, que morava em Haifa, fosse grande amiga da Sra. Avraham Shapiro.
Alguns anos após seu casamento, Chaim soube por um tio que morava na Bélgica: "Há um judeu em Israel que carregou você da Polônia até a Hungria, e salvou sua vida." Chaim, no entanto, não tinha idéia sobre a identidade de seu benfeitor, que continuava a observá-lo de longe.
Em 1980, quando contava 39 anos, Chaim levou a família a Israel para o bar mitsvá de seu filho. A tia de sua mulher enviou uma mensagem a Chaim, dizendo que o judeu que lhe salvara a vida se chamava Avraham Shapiro. Avraham então com 60 anos, morava em Haifa e finalmente estava pronto para encontrar Chaim.
Naquele mesmo dia, Chaim tomou um táxi de Jerusalém a Haifa. "Nosso encontro foi bastante emotivo." relembra Chaim. "Ambos choramos muito, e conversamos durante horas."
Foi o início de um vínculo afetivo entre as duas famílias. Durante os 27 anos que se seguiram, Avraham tem comparecido aos casamentos de todos os filhos de Chaim, e Chaim tem comparecido aos casamentos de todos os netos de Avraham. "Somos muito, muito ligados,"atesta Chaim. "Eu o considero quase como um pai, e ele me considera um filho."
O portão do Gueto de Cracóvia
Mas por que Avraham não fez contato com Chaim mais cedo? Por que ele demorou 35 anos para reconectar?
A resposta talvez esteja contida numa caixa. Antes de se separarem naquele dia em 1980, Avraham contou a Chaim: "Tenho algo para lhe dar." Entregou a ele uma caixa, dizendo: "Esperei 35 anos para lhe dar isso."
Chaim abriu a caixa e viu que estava repleta de pedaços de ouro. Avraham explicou que antes de a mãe de Chaim ser enviada a Treblinka, ela dera aquela caixa cheia de ouro para a irmã mais nova Chaya Rivca, e encarregou-a de usar o ouro para salvar a vida de seu único filho. Quando Avraham concordou em pegar o bebê, Chaya Rivca transferiu a caixa para ele.
Durante sua fuga da Polônia, a família Shapiro usou seu próprio suprimento de ouro. Avraham foi forçado, relutantemente, a utilizar o ouro do pequeno Chaim. Quando chegaram a Budapeste, nada restava. Isso aborrecia muito a Avraham. "Eu tinha feito uma mitsvá de salvar uma vida," explicou Avraham a Chaim, "e não queria vender esta mitsvá por quantia alguma de ouro."
Depois da guerra, assim que Avraham começou a trabalhar, deixava de lado parte de seu salário todas as semanas para comprar ouro. Foram precisos 35 anos, mas finalmente ele tinha a quantia exata de ouro originalmente contida na caixa da mãe de Chaim. Ele entregou a caixa a Chaim, contente por não ter tido nenhum lucro da enorme mitsvá de salvar uma vida. Chaim recusou-se a aceitar o ouro. Avraham doou-o para várias organizações de caridade em Israel, em nome de Chaim Schonbrun.
No Gueto de Cracóvia, a compaixão tinha superado o intelecto de Avraham. Nada jamais superou sua integridade.

Sara Yoheved Rigler
Fonte: aish.com
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Nota:
Shapiro é um pseudônimo. O protagonista prefere permanecer anônimo.
       

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