sexta-feira, 29 de maio de 2015

Vidas Marcadas



Vidas Marcadas

Vivemos dias de profundas transformações sociais e morais. Incertezas e inseguranças quanto ao futuro permeiam a nossa mente e fazem com que nossas expectativas de um futuro melhor, sejam cada vez mais limitadas e temerosas.
A violência toma conta dos noticiários nos Jornais, na TV, na Internet, nas conversas e discussões nos mais variados setores da sociedade. Os programas que exploram as angústias, os problemas e os sofrimentos das pessoas aparecem com frequência nas rádios e emissoras de televisão em todo o mundo, alcançando altos índices de audiência em todas as classes sociais.
Programas sensacionalistas, comandados por aproveitadores de plantão que ganham fortunas incalculáveis das emissoras e dos patrocinadores para apresentarem, de forma irresponsável, os dramas e as dores de tantas pessoas que se dispõem a passar pelo vexame público por alguns “trocados”. Isso quando a “reportagem” é verdadeira, o que nem sempre acontece, pois em muitas ocasiões as “protagonistas” são pagos para mentir deslavadamente ou simplesmente representar aquilo que nunca viveram ou sentiram. Isso não é uma vergonha nacional, mas mundial!
Por que esse tipo de programação alcança índices tão altos de audiência em todo o mundo?
Simplesmente porque a cada dia que passa as pessoas estão ficando mais vulneráveis aos apelos oferecidos pela mídia. Como nunca se viu antes, ela tem influenciado as pessoas a buscarem satisfazer suas “necessidades” materiais em detrimento dos valores espirituais. O importante, segundo seus mentores, é viver o aqui e o agora!
Hoje, a maior parte do que vemos e ouvimos nos mais diversos segmentos está relacionado à disputa.
Desde o nosso nascimento, somos condicionados a sermos os melhores. É uma pressão psicológica enorme sobre as pessoas. Alguns condicionam seus filhos a serem os melhores porque estão em busca de bens materiais, de poder temporal: seus filhos devem ser os mais inteligentes e os mais espertos, em outras palavras: os “donos do mundo”. Outros, que se dizem mais “espiritualizados”, querem que seus filhos sejam os melhores para mostrar ao “mundo” – referindo-se a todos aqueles que não participam nem comungam de sua religião – que os filhos de Deus são diferentes, que a inteligência é um dom concedido por Deus e que eles devem buscar os melhores lugares.
Não são poucos os que entraram nesta paranóia de achar que mais que vencedor é ter a conta bancária mais polpuda no banco em que são correntistas; ter o melhor carro (de preferência importado), ter o melhor emprego e por aí afora. Por essa razão não é de se estranhar que atualmente tantas pessoas lotem as clínicas psicológicas ou psiquiátricas em busca de respostas, ansiosas para obter consolo para suas almas cansadas. São Vidas marcadas em busca de restauração.
A vida costuma deixar muitas marcas em nós. São feridas que demoram a cicatrizar e quando cicatrizam deixam marcas profundas. Algumas visíveis até mesmo a olho nu e outras tão profundas e intensas que somente os mais sensíveis podem perceber.
Muitas vezes essas marcas correspondem aos erros que cometemos ou de que fomos injustamente acusados e nos sentimos impotentes para reverter o quadro, diante das afrontas que recebemos.

Bullying é uma das palavras mais ouvidas atualmente. Quantas pessoas hoje em dia não carregam a marca de se sentirem rejeitadas, ridicularizadas ou estigmatizadas?
Muito embora façam parte de uma grande família, parece que são estranhas aos demais. As outras pessoas da casa quando se levantam pela manhã, apesar de “darem de cara” com ela, parece nem notar a sua presença. É como se ela não existisse. O marido não a nota, os filhos não a compreendem, os irmãos não a percebem.
A vida para essas pessoas passa a ser um fardo difícil de carregar.
Esse sentimento de indiferença por parte das outras pessoas vai provocando um sentimento de inadequação terrível na pessoa. É como se ela estivesse sobrando naquele lugar. Ela passa a se sentir culpada até mesmo por existir.
Olhamos à nossa volta e vemos as pessoas se destruindo com toda espécie de vícios: drogas, álcool, prostituição e elas se dizem felizes com isso! Durante as “noitadas” procuram transmitir alegria e felicidade, mas quando o efeito dessas substâncias acaba, vão para suas casas com um buraco enorme no peito; com um vazio profundo na alma. Uma angústia imensa os invade e não conseguem identificar a sua origem que com o passar do tempo acaba invariavelmente levando à depressão e em alguns casos, à morte.

Andando pelas ruas das grandes cidades podemos presenciar muitas pessoas jogadas ao relento, estigmatizadas pela família e pela sociedade. Todavia, muitas foram vítimas da indiferença social, que prioriza os vencedores e abandona os “perdedores”.
Muitas vezes, esquecemos que essas vidas são como nós, sujeitas aos mesmos erros e acertos, dúvidas e expectativas, desilusões e esperanças...
Se parássemos para conversar com alguns deles, entenderíamos um pouco da situação pela qual passaram.
São pessoas marcadas pelos demais, subjugadas por frequentes alucinações que não os deixam esquecer o passado, mas amadas por Deus.
Nessa caminhada, entre tantos sofredores, poderemos fatalmente encontrar um homem que não suportou as pressões sociais que havia sobre ele e acabou definido como alguém que deveria viver isolado do convívio com as outras pessoas. Você já viu e verá esse filme muitas vezes, mas nem sempre percebeu as marcas do sofrimento estampadas no semblante desses irmãos.
Conversando com ele, ficamos sabendo que ele tinha família, mas que a sua vida “virou” de pernas para o ar. Foi vitimado por situações e dramas que nem podemos imaginar e que poucos conseguiriam suportar.
Se observarmos atentamente, constataremos que nossos dias estão turbulentos e vemos nitidamente o sofrimento estampado em muitos rostos. Olhamos para alguns homens do campo e percebemos em seus olhos o sofrimento de não ter nenhuma expectativa de melhorar a condição de vida para si e para seus familiares. E nos grandes centros o problema não é diferente.
Quantas vezes somos perseguidos e caluniados sem que nossos algozes detratores nos conheçam intimamente? Propagam o ódio à nossa volta sem a menor consideração, sem buscar informações para confirmar se aquilo de que somos acusados é verídico ou não.
Tentemos nos colocar na situação daquele pobre homem: Ele tinha um emprego que considerava sólido e se relacionava bem com as pessoas, mas que de repente foi vítima de alguém que fez comentários mentirosos a seu respeito. Acusado injustamente, acabou perdendo seu emprego. As coisas se complicaram... As contas venceram e não foram pagas, expirou o prazo para o pagamento do aluguel e ele e sua família foram forçados a mudar de residência, mas eles não tinham para onde ir... Não é difícil imaginar que essa situação causou dor, angústia e sofrimento, e infelizmente,  o sofrimento trouxe a separação familiar e com ela o isolamento social.
Esse homem se sentiu só. As pessoas já não queriam conviver com ele. Decidiu morar nas ruas e as privações impostas por essa situação foram fazendo com que seu semblante se tornasse ainda mais indesejado. Suas roupas começaram a se deteriorar. Em pouco tempo a dura realidade surgiu diante de seus olhos lacrimosos: percebeu-se indigente.
Acossado por verdugos invisíveis que o queriam destruir, passou a não se cuidar mais. Atos de higiene pessoal se tornaram cada vez mais esparsos e sua aparência que já era péssima passou a ser horrível, mas ele nem se apercebia mais disso, ele já estava vivendo e se acostumando àquela realidade. O convívio com as outras pessoas tornou-se impossível e num ato definitivo resolveu isolar-se totalmente. Foi morar em um pequeno buraco, escavado com as próprias mãos em um morro distante.  Quem sabe ali poderia encontrar a paz que tanto buscava para sua vida. Ali pelo menos não haveria ninguém para criticá-lo ou até mesmo expulsá-lo de sua presença.
Naquele lugar de isolamento a morte passaria a representar vida para ele: Imaginou quantas pessoas já haviam passado por situação semelhante e tiveram o mesmo destino...   Caso morresse naquele lugar, quantos sonhos não seriam enterrados ali com ele? Quantas pessoas desesperadas que, assim como ele, não viam na morte a única saída para terem um pouco de paz e descanso?
Quantas vezes nos sentimos como este homem? Marcados pelo sofrimento, pela dor, pelo abandono e pela indiferença daqueles que nos cercam?

Se você está se sentindo assim, eu quero lhe dizer que tem alguém que se preocupa com a sua situação e quer ajudá-lo. O Criador o aguarda de braços abertos para enxugar suas lágrimas e reconduzi-lo a uma vida plena e realizada.
Quem sabe a sociedade queira colocar em você as marcas e o peso da dor dos erros que tenha cometido, mas Deus quer tirar as cicatrizes que foram provocadas em você.
Olhe para dentro de você neste momento e veja se ainda existe alguma marca, alguma ferida não cicatrizada e deixe que Ele opere em sua vida.
Este pode ser o momento de cura para sua alma cansada e oprimida.
Para Deus não importam as marcas que o mundo deixou em você, Ele o espera sempre com os braços abertos, como um Pai amoroso que aguarda o retorno do filho que por tanto tempo ficou distante de Sua presença.
Nunca esqueça que o Deus nos ama, Ele nos criou e quer transformar a sua vida para melhor.

Ele quer trazer de volta a alegria perdida e fazer com que você volte a sentir prazer em viver e onde havia marcas de dor e de sofrimento passarão a existir marcas de alegria e de satisfação, de amor e de esperança.

Ben Baruch

Uma visão íntima da intimidade

                  

            A sabedoria convencional diz que a sexualidade é um instinto natural. É uma atividade humana muito comum e inocente, é o que acontece entre um homem e uma mulher, é o que as pessoas fazem, e tudo que precisamos fazer é relaxar e aproveitar, certo?

Parece tão simples. Mas se fosse tão simples, por que precisamos ser lembrados muitas e muitas vezes que é natural, é inocente, é prazeroso, é isso que fazemos, é o que acontece, relaxe e aproveite? Na verdade, a mídia tem nos bombardeado com essa mensagem durante tanto tempo e de tantas maneiras diferentes com tamanha engenhosidade que você se pergunta por que a mensagem não foi aceita. Por que ainda nos sentimos tão pouco à vontade, tão inseguros, tão mistificados pela nossa própria sexualidade?

No mundo criado pelo Todo Poderoso, há três condições. Primeira, existe a condição mundana, secular, diária – coisas simples e comuns que possuímos. Segunda, há a condição sagrada, Divina – tão celestial que não temos essas coisas. Estas duas partes, até agora, são facilmente entendidas e aceitas. A parte difícil é a terceira condição, a sagrada. Embora sagrada signifique separada e indisponível, o sagrado não é totalmente indisponível. O sagrado é aquilo que é mais santo que o comum, mas não tão sagrado que não possamos abordá-lo de maneira alguma. É algo entre aquilo que temos e aquilo que não podemos ter.

Confuso? Deixe-me usar um exemplo simples. O Todo Poderoso nos concede a bênção de filhos. Seus filhos. Meus filhos. Porém quando dizemos "meus filhos", é um "meus" possessivo? Eu possuo meus filhos? A resposta, certamente, é não. Eles não são realmente meus. Não pertencem a mim. Quando digo "minha mulher", isso é algo possessivo? "Meu marido" significa que algo pertence a mim? É claro que não. E mesmo assim, podemos usar um termo tão familiar como "meu" ao nos referir a estas coisas na vida. É a santidade na vida, e se não formos cuidadosos, em nossa arrogância, podemos alegar posse de coisas que jamais pertencerão a nós, e perder sua santidade.

Então, onde entra a sexualidade nisso tudo? Por sua própria natureza – não por decreto Divino, não pela crença religiosa ou ditame – a sexualidade pertence à arena do sagrado. Nós a experimentamos, mas não podemos possuí-la. Podemos ir até lá, mas lá não é o nosso lugar. Podemos ser sexuais, mas não podemos possuir nossa sexualidade. O motivo disso é muito natural e muito básico. Ser íntimo significa ir a um local que é particular, sagrado, que é reservado. A sexualidade significa uma pessoa entrando na parte privada, sagrada da existência de outro ser humano.

Você não pode possuir a intimidade de outra pessoa. Mesmo que a pessoa deseje dar posse.
Não pode fazer isso. Não é partilhável. É uma daquelas coisas na vida que o Todo Poderoso nos dá que jamais podemos possuir. Não posso possuir meus filhos. Não posso possuir meu cônjuge. Não posso possuir meu Criador. Nem sequer posso possuir minha vida. E certamente, não posso possuir a parte intrínseca, sagrada e impartilhável de outra pessoa.
Bem, se isso é indisponível, se não posso possuí-lo, então que conexão, que relacionamento eu tenho com isso?
Esta é a santidade que podemos experimentar, mas não podemos ter. E é por isso que o prazer nas relações íntimas é mais intenso que qualquer outro prazer. Você pode apreciar uma boa refeição. Pode apreciar a boa comida, é um grande prazer, mas não é o prazer da sexualidade porque você possui a comida. É sua. Você plantou os vegetais, cultivou-os, colheu e os saboreou. São seus. Não há reverência envolvida. O prazer da sexualidade é ser uma combinação de ter e não ter. É uma combinação do comum e de algo de outro mundo ao mesmo tempo. É algo a que você tem direito, mas não pode ter e possuir. E quando você sente essa combinação, o prazer de estar no espaço íntimo de outra pessoa enquanto ao mesmo tempo se lembra que ali não é o seu lugar – não é e jamais poderá ser o seu lugar – é isso que torna a sexualidade diferente.

A palavra chave é familiaridade. Com o sagrado, você não pode dar-se ao luxo de se familiarizar. Com o realmente Divino, não há perigo. Está fora do seu alcance – pode esquecer. Com o secular e o mundano, bem, você deveria se tornar familiarizado. Portanto, onde a familiaridade gera desprezo? Onde a familiaridade é realmente destrutiva e indesejável? Na santidade. Se você tornar-se familiarizado, muito familiarizado, com a intimidade da vida de outra pessoa, seja física, emocional ou mentalmente, então você comprometeu a santidade.

Em nosso mundo “diga-tudo-às-claras”, visualizar o poder de destruição da familiaridade pode ser difícil. Porém você não chama seus pais pelo primeiro nome… porque é familiar demais. Não usamos o nome do Todo Poderoso em vão… porque é familiar demais. E para nossos avós e bisavós, relações íntimas eram algo sagrado, sobre o qual não se falava… porque isso seria familiar demais. O relacionamento entre marido e mulher ficava restrito atrás de portas fechadas. Era algo sagrado, algo que não se desperdiçava, partilhava ou sequer falava a respeito. É por isso que nossos avós não podiam falar sobre o relacionamento deles. Não estavam guardando segredos – estavam guardando algo sagrado.

Hoje em dia, a sexualidade humana é algo com o que espera-se que você esteja familiarizado. Alegamos já estar familiarizados com nossa sexualidade e temos vergonha de admitir que não estamos. Removemos a santidade, tudo porque pensamos que nossos severos pais estavam guardando um segredo de nós. A mídia continua a nos bombardear com essas mensagens sutis, brilhantes, da "naturalidade" e "abertura" da sexualidade humana, e isso não está nos convencendo. Por mais que tentemos, não podemos ignorar aquilo que nossos avós sabiam: o leito nupcial é algo sagrado e a única maneira de dar certo é quando você o trata com santidade.
Ainda precisa de provas? Olhe mais de perto para os mesmos avós. Aquelas duas pessoas, que estiveram casadas durante cinquenta, sessenta ou até setenta anos, ainda ficam um pouco tímidas entre si. Ainda têm vergonha uma da outra. Ainda excitam uma à outra, Isso é sexualidade humana. Isso é santidade. E esta é a última palavra em intimidade.
Manis Friedman
Fonte: Chabad

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Alzheimer: Quando é Tarde Demais Para Agradecer



Qual o maior ato de bondade que alguém pode realizar? Segundo a tradição judaica, é preparar os mortos para o enterro. Uma pessoa morta não pode agradecer pelos serviços que você presta, nem gratificar o seu ego. Não há retribuição. Embora a maior parte das pessoas goste de fazer bondades para os outros, em última análise queremos que nossas boas ações sejam reconhecidas, notadas ou valorizadas.

Eu me pergunto: cuidar vinte e quatro horas por dia de um parente idoso que sofre de Alzheimer conta como cuidar de um morto vivo? Na verdade, descobri que é a tarefa mais sem agradecimento que existe, além de ser exaustiva, emocional e fisicamente. Embora eu esteja certa de estar cumprindo a mitsvá de honrar os pais, parece mais que estou cuidando de um estranho em vez de cuidando da minha mãe.

Até surgir o Alzheimer, minha mãe nunca tinha abusado de mim, fosse física, verbal ou emocionalmente. Alguns dias ela não se lembra do meu nome. Ontem, chegamos a um novo patamar: ela não lembra mais que eu sou sua filha.

Minha mãe, tão meticulosa sobre higiene pessoal e sempre vestida com elegância, não pode mais ser forçada a tomar um banho ou a vestir roupas limpas e que combinem. Ela, que adorava crianças, agora detesta ficar na mesma sala com os netos e bisnetos e não se acanha em dizer isto a eles (uma neta pequena ficou tão traumatizada que agora chora e estremece com medo sempre que vai visitar a avó, e raramente vai vê-la em minha casa). Essa pessoa furiosa, assustadora e deprimida não é minha mãe – é uma estranha.

Gosto de cozinhar; não é raro eu preparar e servir refeições para 25 pessoas. Como é irônico que agora uma das partes mais estressantes do meu dia seja planejar a refeição para apenas uma pessoa. Tanto tempo, ideias e despesa a fim de preparar uma refeição para minha mãe. Esforço-me para ter variedade, apelo visual e nutrição. Se uma só refeição for pulada, isso pode resultar, para minha mãe, em náusea, fraqueza e desidratação.

Primeiro, é preciso ser um mágico para antecipar as necessidades dela – quando minha mãe está faminta, ela quer comer agora mesmo. Porém dois minutos após o jantar, ela pode esquecer que comeu e reclamar que está morrendo de fome – então preciso começar tudo de novo. Um cardápio que ela achou delicioso dias ou mesmo horas atrás agora “parece que saiu da lata do lixo”, está “podre”, tem “insetos” ou então está “frio demais” ou “quente demais”. Além disso, pode estar tocando outro alimento, o que torna toda a refeição indesejável, está salgada demais, não tem sal suficiente, temperada demais, sem gosto de nada – eu nunca aprendi a cozinhar?

Ela pode estar faminta, mas vai dizer “Não sinto a menor fome” e depois de alguns acessos de fúria, alguma coerção e subornos, come resmungando – e devora toda a refeição. Um desjejum que seria comido por uma pessoa saudável em 15 minutos pode demorar uma hora para minha mãe. Eu gostaria de dizer que aceitei esta enorme responsabilidade com um sentimento de amor e alegria. Estou tentando, mas ainda não cheguei lá. Posso não estar feliz com a aflição de minha mãe, mas não estou furiosa com D'us. Não pergunto: Por que eu? Porém a intervalos regulares, pergunto: Como posso entender melhor aquilo que D'us deseja de mim?

Imagem no Espelho
Há pouco tempo minha filha mais velha teve seu sexto filho; o mais velho tem apenas oito anos. Após arranjar alguma ajuda extra para cuidar de minha mãe (graças ao meu marido, minhas filhas casadas e uma funcionária), viajei para ficar com minha filha e netos e ajudar durante alguns dias. A hora das refeições era talvez a mais difícil do dia. Uma das crianças não comia se alimentos diferentes se tocassem no mesmo prato. Outra dizia que a comida estava quente demais ou fria demais. Outra se tornava muito irritada se não fosse servida agora mesmo. Uma delas disse que a comida estava temperada demais, outra que estava sem graça. Uma outra falou que a comida parecia vermes e olhos (mas comeu assim mesmo). Um deles recusou-se a comer qualquer coisa. O outro levou dois minutos para comer; o pequeno enrolou para engolir durante 30 minutos, após muita adulação. O suco derramado e as roupas manchadas! O barulho e as ocasionais brigas entre irmãos!

Ocorreu-me que o comportamento deles espelhava o de minha mãe. Porém quando as crianças agiam, eu não me senti tensa ou aborrecida – havia alegria e nachas*. Não é irônico que quando um bebê não corresponde ou se suja, mesmo assim o achamos adorável? Infelizmente, o mesmo não pode ser dito sobre comportamento idêntico vindo de uma pessoa idosa. Enquanto eu corria de uma criança para outra, beijando um ali, servindo uma refeição, separando roupas sujas, limpando uma mancha – as coisas que todas as mães no mundo inteiro fazem – pensei retoricamente: Onde está a gratidão? A natureza de uma criança é narcisista, e a expectativa supera a apreciação. E mesmo assim as amamos incondicionalmente.

Por que eu achava tão difícil fazer isto com minha mãe?

Foi quando me ocorreu a revelação: O que D'us deseja de mim?

Se somos criados à Sua imagem e Ele é nosso Pai, não somos como a criança mal-agradecida? Aceitamos como algo que nos é devido às bondades “regulares” que recebemos diariamente – o fato de termos comida para comer, e geralmente saborosa! Termos roupas para vestir, e elas são (na maioria) limpas e atraentes! Temos um quarto para chamar de nosso, e uma cama para dormir!

Porém se algumas dessas coisas nos fossem negadas, mesmo por um curto período, seríamos desaforados porque passamos a esperar por isso, assim como o ar que respiramos e o sol que nasce (mais coisas para agradecer!). As bênçãos diárias que recitamos pela manhã são um veículo para mostrar gratidão a D'us. Elas nos ajudam a termos consciência da Sua bondade e a não considerar qualquer parte da nossa vida como algo que nos é devido. Isso nos eleva acima do senso de habilitação infantil e nos encoraja a levar uma vida mais consciente – e conscienciosa. E por mais imperfeitos que sejamos, D'us nos ama incondicionalmente.

Se as duras críticas que recebo de minha mãe, apesar dos meus esforços para cuidar dela, fazem meus ouvidos arderem e meu coração ficar pesado de tristeza e frustração, devo olhar para mim mesma e perguntar: eu agradeci adequadamente a ela por todas as noites em que a deixei sem dormir enquanto ela cuidava de mim? Agradeci por ela me preparar refeições diárias e por lavar as minhas roupas? Por ajudar-me com meu dever de casa? Por aconselhar-me e me encorajar?

A maioria de nós poderia jamais acabar de achar coisas pelas quais agradecer aos pais. Agora que aos poucos minha mãe está se tornando um recipiente vazio, tragicamente é tarde demais para eu consertar as coisas. Reconhecer verbalmente a ela suas bondades passadas seria criar confusão e incompreensão.

Porém não é tarde demais para eu agradecer a D'us. Quando acordo pela manhã, recito modeh ani (agradeço a Ti) com uma convicção cada vez maior. Recito as bênçãos com mais sinceridade, e aprecio mais as coisas grandes e pequenas. Ironicamente, minha lista de gratidão aumenta com a mesma rapidez do declínio de minha mãe.

Sarah Bloomberg
Fonte: Chabad
* Nachas : palavra iídiche que significa orgulho, alegria


quarta-feira, 27 de maio de 2015

As pessoas podem mudar

                         
A maioria das pessoas nunca muda realmente. Triste, mas verdadeiro. Algumas pessoas nem sequer tentam.
Porém aqueles de nós que tentam muitas vezes passam por frustração e desapontamento, pois encontram as mesmas limitações todas as vezes.
A vida pode começar a parecer bastante repetitiva.

Criar Algo do Nada
Por que na maioria dos casos a sua vida continua parecida com alguma variação daquilo que era antes?
A resposta é: porque estamos criando algo de algo. Estamos tentando criar um futuro novo e diferente baseado nas limitações do nosso passado.
Imagine que você é um ceramista e tem um pedaço de argila. Você pode estudar o seu ofício e fazer vasilhas que são mais lisas, mais fortes ou mais bonitas que antes. Porém depois que tudo estiver pronto, ainda são apenas vasilhas de barro.
Quem disse que você tem de ser um ceramista? E quem disse que você pode apenas fazer artigos de argila?

D'us Cria Algo do Nada
Há um princípio cabalista fundamental da Criação conhecido como yesh ma'ayin – "algo do nada".Este princípio explica que D'us está trazendo o mundo inteiro, incluindo você e eu, à existência do nada absoluto a todo momento.

D'us não criou este mundo de uma vez e recolheu-Se ao céu, onde supervisiona a distância e intervém quando apropriado. Ao contrário, Ele está ativo e intencionalmente falando ao mundo à existência do nada no presente momento, de novo, e de novo, e de novo. De fato, se D'us parasse de criar este mundo – com todos os seus mínimos detalhes – a qualquer momento, o mundo e tudo que existe nele desapareceria como se jamais tivesse existido.
Baseado nisso, duas coisas ficam claras:
1 - O mundo não tem existência fora de D'us. Tudo que experimentamos na vida é parte de D'us e Sua intenção e propósito para a Criação.
2 - D'us deseja o mundo – e você como um ser individual – com um desejo pessoal e intenso. Tudo que você faz tem grande importância e significado para Ele. É por isso que Ele continua criando você.
Lembro-me de um antigo comercial onde um menino diz algo mais ou menos assim: "Eu devo ser bom porque D'us me fez, e D'us não faz coisas ruins”.

A verdade é muito mais poderosa que isso. D'us não faz qualquer coisa ou qualquer pessoa sem um profundo objetivo. Ele deseja apaixonadamente você e da mesma maneira quer que você O deseje. E Ele está esperando – com a respiração suspensa – que você abrace o propósito Divino para o qual você foi criado. Para transformar sua vida, seus relacionamentos e suas circunstâncias numa "morada" para o Divino.

O Que é Nada?
D'us cria a partir do Nada, ayin, que significa possibilidade absoluta, infinita.
Sem limitações ou restrições. Nada mesmo.
Quando você não precisa ser qualquer coisa específica, está livre para ser qualquer coisa. A Cabalá chama este potencial infinito de "nada" – não porque não há nada ali, mas porque não há quaisquer limitações que definam ou restrinjam esta infinita possibilidade em qualquer maneira.

Você já está criando algo a partir do Nada
Como um ser humano criado à imagem de D'us, você também está habilitado a criar algo a partir do nada. E você faz isso, o tempo todo.
Infelizmente, na maior parte do tempo o que criamos são as histórias sobre aquilo que não podemos fazer, que somos incapazes de fazer, que jamais teremos – juntamente com todos os motivos e porquês.
Estas histórias estão continuamente sendo recriadas do nada na vida de cada um de nós. Mas ao contrário de D'us, que cria conscientemente, nós criamos essa realidade inconscientemente. É uma espécie de programação com defeito. Sim, talvez tenhamos razões para aquilo que acreditamos serem as nossas limitações, mas aquelas razões, embora possam ajudar a explicar nosso passado, não têm o poder de limitar nosso futuro. A menos que pensemos que elas têm este poder, e ajamos dessa maneira.
A maioria das pessoas não acorda pela manhã sentindo reverência pelo próprio potencial, em conexão com o Divino propósito, repleta de alegria de viver, pronta a criar. Com maior frequência acordamos conscientes demais das nossas limitações, nossos desapontamentos, frustrações ou necessidades não preenchidas. e do fardo dos problemas que precisamos resolver. Não admira que tantos de nós estejamos cansados ainda antes de sair da cama.

Harold e o Crayon Roxo
Há um belo livro infantil chamado "Harold e o Crayon Roxo". Nesse livro, Harold, um bebê, desenha coisas com seu crayon roxo nas paredes de seu quarto. Castelos, montanhas, estradas e tigres. A parte interessante é quando Harold escala as montanhas, percorre as estradas, explora os castelos e foge dos tigres. Às vezes ele vai tão longe no desenho que não consegue achar uma maneira de voltar para casa – mas então, simplesmente pega seu crayon roxo e desenha a estrada de volta.
Harold está criando algo a partir do nada.
Você também pode criar algo do nada.
Sua vida, seu presente e seu futuro, é na verdade um ayin – um "nada"de infinito potencial. Sim, é verdade que sendo uma alma num corpo físico, há alguns limites para aquilo que você pode criar.
Mas você não tem ideia daquilo que eles são.
Você deseja experimentar amor incondicional? Como você se comportaria se estivesse comprometido a amar outros incondicionalmente, em especial aquelas pessoas que anseiam por seu amor? Seus pais. Seus filhos. Seu cônjuge. Seus amigos. E que tal se você percebesse, aceitasse e apreciasse a maneira pela qual eles amam você – mesmo que não se pareça exatamente com a maneira que você deseja que se pareça. O que poderia acontecer hoje se você se comportasse daquela maneira? E se você permanecesse engajado com aquela experiência no decorrer do tempo – o que poderia acontecer aos seus relacionamentos mais íntimos, sua família, sua comunidade, seu mundo? Não se iluda deixando de lado essa questão. Pense realmente sobre ela.

Você deseja experimentar seu poder de viver como um criador, em vez de como uma vítima em sua vida? Como você se comportaria caso se recusasse a deixar que seus temores e falhas passadas colocassem quaisquer limites naquilo que você faz agora?
O que você faria se resolvesse fazer aquilo que está adiando? O que poderia realmente criar ou realizar com o tempo se fizesse aquelas coisas? E talvez ainda mais importante, como seria a vida para você exatamente agora, se escolhesse ser uma pessoa que não se deixa deter pelo medo?
Você quer estar em contato mais íntimo com seu Criador e seu Divino propósito? Como você se comportaria se fosse uma pessoa comprometida a ver a presença íntima, infinita e amorosa de D'us em todos os aspectos de sua vida? E se toda ação que você fizesse fosse baseada na presunção de que nada está errado – porque D'us está intencionalmente criando seu mundo agora mesmo em prol de seu supremo objetivo e realização?
Como seria sua vida – agora – se você agisse daquela maneira? E quanto aos seus relacionamentos? Sua energia? Sua felicidade? Sua paz de espírito?
Como um fazendeiro que ara seu campo, planta sementes, rega-as e cuida delas, às vezes leva tempo para ver os resultados dos seus esforços. Porém se você está disposto a criar algo a partir do nada, não precisa ficar à toa enquanto espera que as coisas cresçam. A própria decisão de ser um criador em sua própria vida traz com ela algumas recompensas poderosas, intrínsecas; recompensas como felicidade, realização – e milagres.
           

Shifra Hendrie